Bora para mais um compilado de leituras recentes? Nas últimas semanas, viajei mais rápido que a velocidade da luz, levei um soco no estômago com uma distopia brasileira (outra, não a que vocês estão pensando), li mais um clássico de Philip K. Dick que caiu em domínio público e fui transportado ao passado em um paradoxo. Para quem tem a assinatura do Kindle Unlimited, todos os livros são de acesso gratuito.
Quem me acompanha sabe que tem tempo que desisti de ser uma pessoa só. Escolhi ser múltiplos, percorrer vários caminhos, sentir mais de uma vez a sensação da linha de largada. Escrevi em uma ocasião sobre isso, sobre as pessoas que são como a Voyager e se lançam e singram o espaço sem parar (foguete não dá ré) e sobre as pessoas que desenham pétalas, indo e vindo, começando e recomeçando, muitas vezes em paralelo. Eu sou desse grupo.
Um desses muitos eus é o que resolveu levar mais a sério o ato de escrever, de pensar mundos, possibilidades futuras e/ou absurdas. Esse eu está dando um passo singelo, mas significativo para mim. Escolhi o caminho da independência como autor, e tenho autopublicado boa parte do que escrevo. Mas, aprendi, independência não é solidão. Foi quando descobri um grupo de autores de ficção científica brasileiros que se uniram para contribuir uns com os outros. Gente que não vê outro escritor como concorrente, mas como alguém que compartilha a paixão e o prazer por ler e criar universos. Sozinho, se vai mais rápido. Junto, se vai mais longe.
Encontrei essa turma e me encantei com a possibilidade do fazer colaborativo. Uma comunidade como tinha conhecido e estudado tantas vezes em meus muitos mergulhos no universo da tecnologia. Um quê de blogosfera, de Wikipedia, dos BBSes lá no século passado. Comunidades, no sentido tão desgastado do termo. Meus Eus olharam e gostaram do que viram.
Cheguei para tornar mais difícil o desafio de zerar a Maratona Saifers.
Eis que me junto a essa comunidade, aoselo Saifers de escritores brasileiros de ficção científica, um selo que agrupa 50 títulos, entre romances, contos e antologias de, hoje, 8 autores e embaixadores dedicados a levar essa literatura contemporânea a mais pessoas. Gente de todo o Brasil, de vários (ou nenhum) credos, xóvens e véios paradoxais.
A ideia é lançar pelo selo Saifers, esse ano, uma nova coleção de contos e um novo romance, o tal que se passa em Marte e que tem um protagonista que vocês vão amar detestar.
E tem mais uma novidade: para quem prefere ler livros em papel, IVUC ganhou uma versão física, já como Saifers e com uma diagramação incrível, que estará disponível em livrarias digitais nos próximos dias. Eu aviso por aqui assim que chegar às lojas.
Comecei a trabalhar em um novo romance, que terá como cenário uma colônia humana em Marte. Uma das partes mais legais de se escrever contos ou livros de ficção científica é a pesquisa, que vai além do laboratório e do olhar sensível. Somos instigados a mergulhar nos aspectos físicos, químicos, biológicos e tecnológicos para responder às mais provocativas das questões: “E se…”
Além de muitos contos, destaco duas leituras de dezembro/2023: o livro de ficção científica Algoritmo, de Maikel Rosa (Saifers) e o romance histórico apocalíptico 999, de Wilson Jr. (Escambau). Narrativas distintas que envolvem nosso medo (e/ou fascínio) pelo desconhecido.
Gleidinho é um vendedor de biscoitos no Centro do Rio sem qualquer paranauê até o encontro com uma entidade misteriosa que o leva a uma viagem a um mundo fantástico onde será preciso explorar as possibilidades de tudo que não é (ainda, já foi ou nunca existiu) para resgatar paranauês perdidos.
Além de Máquinas como Eu, que rendeu uma resenha específica aqui no Brogue, nas últimas semanas tive a oportunidade de ler alguns livros bem interessantes e diferentes entre si. Teve muita ficção científica, mas não só. Houve espaço para o fantástico, o decolonial e a literatura sarcástica e ácida de Fernanda Torres. Vamos ao rodízio de leituras? Hoje, temos no cardápio Os registros estelares de uma notável odisseia espacial, Nibiru, Deus Salve a América, Ekos e Fim.
O ano era 1990. O Brasil vivia um período distópico. Collor havia confiscado o dinheiro da poupança dos brasileiros e a situação financeira ainda pioraria bastante. Para um nerd suburbano adolescente metido a cientista, acesso a computadores e itens eletrônicos demandava operações que mais pareciam negociatas com algum cartel de drogas, fora quantias financeiras em geral inacessíveis. Ainda ecoava em mim o trauma da explosão do ônibus espacial Challenger e o fiasco da visita do cometa Halley, ambos em 1986. Mas havia uma esperança. Novos e fascinantes mundos começaram a se abrir quando tomei contato com a versão brasileira da Isaac Asimov Magazine, publicada por aqui pela Ed. Record, entre 1990 e 1992.
Robôs, autômatos, androides, criaturas dotadas de inteligência artificial. Não faltam personagens e histórias de ficção científica centradas nessas figuras presentes em nosso imaginário há séculos. As Leis da Robótica, postuladas por Isaac Asimov, estreitaram as ligações entre ficção e realidade. Uma imaginando, a outra lendo a SciFi como profecias sendo realizadas.
Beijou a criança na testa e fechou as cortinas para manter a penumbra do quarto. Quase tropeçou em um pato de pelúcia. Pôs a ave vestida de marinheiro de volta à prateleira e saiu, encostando a porta. O cheiro de torradas o guiou até a cozinha. Comeu, despediu-se do hálito de hortelã da esposa, tomou um último gole de café quente enquanto se levantava. Pegou os óculos escuros, o boné de abas largas e, com um segundo beijo, saiu apressado.
Arte sobre ilustração da nave Andarilha, de Christopher Doll
Para vermos com clareza certas questões, precisamos mudar nossas perspectivas. De fora, muitos traços de nossos comportamentos ou socidade se tornam estranhos. Esse é o desafio do antropólogo e do etnógrafo, por exemplo. Colocar-se como estrangeiro em sua própria terra.
Há um atalho, acessível mesmo a quem não se dedica às importantes ciências sociais: a ficção científica. Em Star Trek, a SciFi nos mostra que há razões para acreditar que, sim, superaremos nossas diferenças e vamos explorar a galáxia como desbravadores que somos. Star Wars nos chama a atenção para o mal travestido de herói, para a vilania dos impérios, mesmo quando se autodenominam guerreiros da democracia. E que não há como se exterminar o mal, nem o bem.