Zé era o mais velho dos cinco irmãos, nascido num tempo em que a vida ainda não tinha afrouxado as mãos que garguelavam o pescoço da mãe. Não teve muita chance de estudar, e a mão cheia de calos não encaixava bem nos lápis e canetas. Ajudava a mãe a criar os outros filhos, tudo homem, depois que o pai se mandou pro Sul prometendo voltar logo mas nunca mais apareceu de novo. Zé já era grandinho mas magro feito um palito quando a família diminuiu, a mãe tinha que cuidar da casa e dos filhos dos outros para ganhar um dinheiro tão esquálido quanto ele.
Mas vez em quando, bem vez em quando, as coisas melhoram ao invés de piorarem e a vida foi se acertando. Colocaram reboco nas paredes da casa, Zé ajudou a subir as paredes pra fazer mais dois quartos e os irmãos foram pra escola.
Imagina a alegria quando, um a um, chegavam em casa dizendo que tinham conseguido entrar para a faculdade. Zé ia ter quatro irmãos-filhos dotôres, que alegria. Todos estudaram e, pra bancar a passagem de ônibus e a comida, trabalhavam também. Trabalho de estudante de dotô se chama estágio, é mais chique mas paga mal do mesmo jeito.
Quando a empresona chegou na cidade, todo mundo passou água de colônia e colocou a “roupa de arrumar emprego” da família. Era uma só, então só tinha como ter uma entrevista de emprego por dia. Tivesse mais de uma, lascou-se.
E não é que a roupa era porreta? Todos os quatro conseguiram trabalho na empresona. Zé nem tentou, seu recheio não ornava com o terno. Mas ele fazia bicos de limpeza pra ajudar a mãe, que já não dava conta.
Até que a matriarca não aguentou mais. “Tô véia”, percebeu, e tinha razão. O tempo passa em dobro pra nem não orna com terno de entrevista. Então ela foi morar na casa do irmão do meio, num bairro da cidade com calçada, pracinha e até TV com uns cem canais.
O caçula, que não se chamava Júnior porque a mãe não queria nem ouvir o nome do pai, foi o primeiro a ganhar um cargo Sênior na empresona, tinha sala particular e tudo. Foi ele que arrumou o emprego pro Zé na limpeza. “Vou acionar meus contatos”, falou o caçula depois de um almoço de família na casa do irmão do meio, tomando um energético enquanto Zé palitava os dentes e a mãe lavava a louça.
Então Zé ganhou um crachá com a foto dele sorrindo muito feliz, os buracos entre os dentes deixando ver o foguinho de esperança que tinha lá dentro. Ele havia conquistado um lugar na empresona sem precisar ornar com o terno, então ainda tinha chance de virar dotô sem ter que passar pela faculdade e o estágio que é chique mas paga pouco.
Limpava com muito esmero, até ficar tudo brilhando e sem um fio de cabelo no chão. Assim, depois de alguns anos tirando pó de mesas e aceitando caronas dos irmãos até a rodoviária onde pegaria duas conduções pra casa (a tal que ele ajudou a rebocar e onde hoje vive sozinho), uma caixona começou a mudar tudo.
O caçula explicou que era uma caixa inteligente, com uma inteligência muito sábia e esperta, só que artificial. Não servia pra coisas de inteligência assim do mundão, tipo cravar o número que vai dar no jogo do bicho, mas resolvia um monte de problema que Zé nem sabia que existiam.
A caixa ia ficar dentro da empresa porque o dono não confia nesse negócio de nuvem, computação em nuvem. Zé achou certíssima a implicância do dono. Imagina só, pegar os documento tudo da empresa e colocar na nuvem. Aí, quando o céu fecha, preto, aquelas nuvenzonas pesadas do fim de tarde de verão, no primeiro raio que pipocar vai chover documento pra tudo quanto é lado. Cabum!, e lá vai um contrato. Bum!, e se pirulita o manual pra fazer algum treco secreto lá deles.
Zé achou ruim essa ideia de guardar as coisas importantes na nuvem e fez um sorriso de “o dotô tá mais que certíssimo” quando cruzou com o dono no corredor, o funcionário tirando a vassoura do caminho pra, bate na madeira paidocéu, não varrer o dotô pra longe.
A caixona era preta, com uns vidros escuros e muitas luzes piscantes. Era tipo uma geladeira, mas esquentava muito, então ficava numa sala só dela, igual o irmão caçula que não se chama Júnior porque o pai não presta, e num frio que só. O dono mandou instalar um ar-condicionado só pra caixona que era inteligente e pensava sozinha num monte de coisas, menos no jogo do bicho.
Deu umas três semanas e o primeiro irmão mandou mensagem no grupo da família informando que “estava no mercado e buscava oportunidades de recolocação”. Zé pensou em pedir pra ele não esquecer de comprar no mercado algumas coisas que a mãe gostava, mas pelos áudios dos irmãos viu que não era isso. Tinha sido mandado embora.
A cada semana era outro irmão que perdia o emprego. A caixona estava fazendo o trabalho deles, então os funcionários não eram mais necessários. O último a levar o pé na bunda foi o caçula, porque deve dar mais trabalho se livrar de gente que tem uma sala só pra ela. A caixona roubou o emprego dos quatro irmãos do Zé.
Na escala de trabalho, cabia justamente ao Zé limpar a sala da caixona. Ele olhava pra ela, cara de zangado. “Você fez uma coisa muito feia”, dizia pra safada da máquina. A caixona nunca respondia, seguia piscando suas luzes. Olhou bem pra caixa. Notou que ela jamais havia saído do lugar. Não tinha braços nem buraco onde encaixar uma vassoura. Pelo menos o emprego dele parecia seguro, mas não era justo o que ela fez com os quatro irmãos que Zé prometeu cuidar pra mãe poder cuidar do filho dos outros depois que o pai se mandou.
Zé precisava fazer alguma coisa.
Foi quando tomou coragem e se aproximou da caixona. Esperou a câmera que fica girando de um lado pro outro igual vizinho fofoqueiro que não tem mais o que fazer ficar fofocando o outro lado da sala e cutucou a ponta do fio que liga a caixona à tomada. Deu aquele totozinho sutil, suficiente para apagar todas as luzes e silenciar os zumbidos. Mas, para qualquer um que olhasse, a tomada estaria encaixada certinha no lugar.
Saiu da sala se sentindo vingado, deixando para trás uma grande caixa preta de metal e vidro, silenciosa, apagada e incapaz de demonstrar qualquer inteligência. Cedo ou tarde alguém ia descobrir e recolocar a tomada no lugar, mas o importante é que agora a tal inteligência ia ter que pensar duas vezes antes de bulir com alguém com uma vassoura na mão e que já acertou uma pá de números no jogo do bicho.
No fundo, a gente morre de medo das IAs, as Inteligências Artificiais. Mas o lance é que a gente também ama as pessoinhas virtuais e confia nelas. Principalmente porque “algoritmo não erra”. Nossa relação dúbia com a cria de Ada Lovelace, que inventou os algoritmos láááá atrás, é uma conclusão lógica e racional. Que, assim como as decisões das máquinas, que sempre são lógicas e racionais, também podem estar logicamente erradas.
A base é uma observação do mundo. Tudo que não é natural nesse planeta, foi a gente que fez. Ou seja, tirando sol, terra, ar, bicho e planta, o humano é o grande Criador. E, tirando bicho, planta, etc, a gente consegue ver uma pá de coisa errada por onde quer que olhemos. A conclusão mais óbvia de qualquer um que coloca a cabeça pra fora da janela é “deu ruim, deveríamos ter virado para um lado diferente em alguma bifurcação evolutiva lá atrás. Vacilamos, foi mal”. Daí o famoso “errar é humano”. Como diz Douglas Adams, “descer das árvores foi um grande erro”.
Por conclusão lógica, se o humano é inevitavelmente errado, o não-humano tá certo. Aí entra o Divino, que jamais erra, mesmo quando a gente acha que não tinha nada a ver, sei lá, três raios caírem sobre um orfanato, ou alguém ficar doente muito cedo. “Deus sabe o que faz”. O tal do inefável, tão presente em Belas Maldições, do Gaiman.
Mas o Divino, que não erra, não ajuda muito a fazer carros andarem sozinhos, a otimizar triagem em hospitais, a criar textos, imagens e linhas de código, derrotar campeões de jogos de tabuleiro etc. Então inventamos nossa própria divindade, que não erra, invisível, onipresente e cada vez mais onisciente: a IA.
Não tem como não amar e querer mais e mais de algo que não erra* e vai deixar tudo perfeito. Vai encontrar nossas potencialidades ainda na escolinha, vai curar as doenças que ainda nem temos, vai incrementar a análise dos esportes vai… tudo.
Tudo? Aí deu ruim, dá pra voltar atrás e dobrar diferente alguma esquina do passado? Agora é tarde. Quando a coisa que não erra e faz tudo, começa a fazer tudo, onde fica a gente? Pelo menos, a IA parece ser de fato democrática e não elitista: ameaça tirar o emprego de todo mundo, do motorista de caminhão ao Washington Olivetto, do Romero Britto ao oncologista. Se vai conseguir, não sei. Até porque IA só apita enquanto o humano deixar, é ele quem, pelo menos, ainda paga a conta de luz que alimenta o servidor.
Tudo isso é pra dizer que Movimento 78, de Flávio Izhaki, é um livro sensível, antenado, divertido e muitíssimo bem escrito. Vamos oscilando entre presente e futuro para ver como um inocente “olha, fiz uma foto minha em IA” pode virar uma grande caca em algumas décadas. O que começa em triunfos de IAs-celebridades como AlphaGo e DeepBlue degringola para erros fatais por excesso de confiança (e ganância) nesses sistemas e, por fim, à submissão da sociedade aos algoritmos, às probabilidades e às invisíveis máquinas que sabem que são melhores e mais consistentes que nós.
Como toda ótima ficção científica, provoca reflexões. Consegue ser crítica sem ser ludita. A IA, em si, não é má, não é algo a se combater: ela pode ser uma aliada poderosíssima nossa, pode de fato nos libertar de uma série de de problemas ou erros. Ou pode ser o pior movimento de peças que já fizemos no tabuleiro da história. Pensei em ilustrar esse post no Midjourney, mas além de já não ter mais créditos, tive medo de essa ser justamente a jogada que degringola o espaço-tempo. Igualmente cogitei pedir pro ChatGPT fazer uma resenha do livro, mas também tive medo do texto ficar melhor que o meu.
P.S. Concordo 100% que a melhor parte da recém-paternidade são os momentos de intensa conversa entre pai e bebê à espera de um arroto. Duvido que o ChatGPT dissesse isso no texto dele.
P.S. 2 Profissionalmente, sigo estudando e explorando cada vez mais as IAs. São ferramentas muitíssimo poderosas para inúmeras atividades. Mas precisam ser isso, ferramentas valiosas e incríveis, não divindades. Lugar de martelo é na mão, não sobre nossas cabeças. Na questão do roubar ou não os empregos, prefiro ter a visão otimista de que elas têm potencial para nos livrar de nossos trabalhos, nos libertando para viver e não cumprir tabela de 9 às 5 por toda a existência.
* Importante fazer justiça aos vários pesquisadores que fazem trabalhos sérios sobre ajustes fundamentais em nossa forma de aprimorar e usar algoritmos, denunciando questões como o “racismo algorítimico”. Esquecemos que eles são programados por humanos, respondem a objetivos empresariais e são alimentados por dados também produzidos por nós.
Nem toda história com vacas mecânicas defensoras da Justiça, ratos-toupeiras engenheiros genéticos e alces voadores que conversam por mensagens de texto são de humor ou contos de fadas. E nem toda utopia ambientalista de sinergia total entre animais, plantas e ecossistemas é uma história feliz de cabo a rabo.
Annalee Newitz faz um excelente trabalho ao amarrar tudo isso numa trama que a gente pode enquadrar no movimento SolarPunk: a luta de personagens conectados a redes digitais contra sistemas opressores, que já conhecemos do gênero Cyberpunk, só que ao invés da trama se passar numa Tóquio escura e cheia de neon, ela se passa em meio à natureza e edifícios que brotam e respiram como plantas.
O texto é uma SciFi de primeira, assumindo o desafio de imaginar a vida em um planeta distante, Sask-E, por volta do ano 59 mil. Animais falam, robôs são pessoas, drones se casam com portas. Os Homo Sapiens (e seus descendentes) fizeram um pacto com animais, que já não servem de alimentos e são tratados (quase) com respeito. Ninguém mais come ninguém, nem no sentido bíblico da coisa, uma vez que as criaturas vivas são decantadas e raramente nascem da maneira que a gente conhece. Mas temos pegação, em modo queer galático (o que será um desafio à tradução, para tropicalizar os pronomes he, she, they).
Poderia ser uma utopia total, mas nem toda a tecnologia e as inovações incríveis, que deram a nossa espécie a capacidade de terraformar planetas distantes, viajar por meio de buracos de minhoca, trocar de corpos para viver por séculos anularam características muito contemporâneas e familiares, como a mesquinharia, o desprezo pelas classes operárias, a ganância e o poder do dinheiro.
Esse é o papel da ficção científica. Não é prever o futuro, mas projetar, imaginar cenários. Transpor elementos do hoje para cenários distantes (no tempo ou no espaço) e ver se ali, desplugados do cotidiano que camufla defeitos e vícios, eles nos gritam. Precisamos sair do nosso lugar para perceber nosso caminho tortuoso. Precisamos nos colocar na pele de uma vaca justiceira ou de um alce voador para perceber como doem preconceitos, tabus e limitações impostas por um sistema injusto.
bri a porta do apartamento e fui recebido pelo aroma de orégano e pelo alarme estridente do timer da cozinha. A pizza estava pronta. Celebrei comigo mesmo o sincronismo. Assim que deixei o escritório de arquitetura, compartilhei a localização com minha esposa. Coube a ela rastrear meus passos e colocar a pizza no forno do tempo exato. Tanto cuidado se justificava: não é toda hora que celebramos nosso primeiro aniversário de casamento.
Eram bodas de papel. O primeiro ano juntos, em que o calor da paixão pode esfriar mais rápido que a consolidação da cumplicidade, é simbolizado por esse material que se julgava frágil, efêmero. Lembro do celular no bolso, penso no outro aparelho usado para seguir meus passos e rio com a inversão de valores. Em tempos de redes sociais e vidas construídas virtualmente, o papel passou a ser eterno, raro, valioso. Um viva à boda de papel, então.
Trouxe uma garrafa de vinho de qualidade duvidosa, comprada na loja de conveniência do posto da esquina. Sentados à mesa, abastecemos nossas taças e nos deliciamos com a pizza, que estava ótima. Uma notificação de celular interrompeu uma disputa pela última fatia, em que os garfos viraram sabres, e éramos esgrimistas lutando pelo espólio.
Ela desbloqueou a tela, leu algo no aplicativo de mensagens e ia retornando à celebração (prestes a descobrir que eu tinha comido a tal fatia), quando percebeu que a localização compartilhada há um bom tempo seguia ativa. E o mais estranho: o pontinho com minha localização não tinha parado em casa. Seguiu rua abaixo, avançando até outro ponto da cidade. No momento, estava ziguezagueando por um trecho de serra, em um bairro de luxo à beira-mar, com grandes casarões incrustados nas encostas rochosas de frente para o oceano.
Como arquiteto, já tinha participado do projeto de algumas casas ali, para atores, atletas, gente com grana e prestígio. Mas jamais visitei os lugares depois de terminadas as obras, coisa que a bolinha que me simbolizava no celular estava estar prestes a fazer.
Nos entreolhamos, confusos. “Será que meu celular foi clonado?”, pensei. O efeito do vinho passou de súbito com a adrenalina. Saquei o celular, abri os aplicativos de bancos, e-mail e cartão de crédito, alterando as senhas. Cancelar a linha telefônica naquela hora da noite seria uma baita dor de cabeça, então optamos em monitorar o clone, para ver até onde ele iria.
Até seguir caminho rumo ao bairro dos casarões, o trajeto assinalado no aplicativo era exatamente o feito entre o escritório e nossa casa. “Será que foi quando entrei na loja de conveniência?” Teria sido obra do sujeito estranho tomando guaraná natural com um laptop sobre a mesinha circular? Ou foi a atendente simpática a quem paguei pelo vinho?
Não tínhamos quaisquer pistas. Fui à janela da sala em busca de alguma van suspeita, com antenas no topo, como as dos filmes de espionagem. Nada fora do comum, noite normal lá fora.
Voltei ao sofá onde minha esposa acompanhava os passos do clone depois de abandonar a mesa do jantar de bodas de papel. O impostor era, sem dúvida, a atração principal da noite.
Depois de alguns minutos piscando sobre uma casa específica, o compartilhamento de localização foi interrompido. Saquei meu computador da mochila e, com ele, procurei pela casa em um mapa online e, depois, por notícias sobre o local. Era a residência de um famoso estilista. Por coincidência, haveria um grande evento ali, para lançamento de uma coleção exclusiva, com presença de fotógrafos renomados e top models internacionais. “O picareta tem bom gosto”, reconhecemos.
Defunta qualquer possibilidade de retomarmos o roteiro romântico do jantar com vinho, pizza caseira e luz de velas (que esquecemos de acender), o item seguinte na programação foi vasculhar os perfis em redes sociais do anfitrião e dos convidados ilustres destacados pelos perfis de fofoca.
A festa tinha vários ambientes e uma decoração inspirada em um mashup entre o Brasil tropical e o oriente tecnológico. Muito raio laser, garçons performáticos e música eletrônica. Alguns convidados faziam selfies ao lado de emas adornadas com tiaras cravejadas de brilhantes. Acrobatas desafiavam a gravidade presos a largas faixas de tecido que pendiam do alto de grandes palmeiras.
Um participante fez uma transmissão ao vivo mostrando detalhes do estacionamento, um pequeno congresso de Ferraris, Mercedes e afins. Já uma jovem, influenciadora digital especializada em comida, fez questão de perseguir os garçons, mostrando um a um os quitutes para seus seguidores. Eu desconhecia todos e, acredito, não provaria nenhum, limitado por meu paladar infantil.
“Espera, volta uns segundos aí.”
“Por quê? Quer anotar a receita?”
“Não, não, só volta uns segundos. Olha o cara que vai passar atrás do garçom.”
Arrastando o dedo, retrocedi a saga dos canapés, atento à minutagem que chamou a atenção de minha companheira de sofá. Tremi. Meus lábios ressecaram. Afundei no sofá, a sala girava ao meu redor. Algo apertava meu coração, levando-o para longe, para fora do tórax.
Naquele vídeo, passando por trás de um garçom que era atacado pela influenciadora dos canapés, estava um homem, feliz e confiante, segurando um martini. Ele parou por uns segundos, deu um gole na bebida, abriu um grande sorriso e acenou para alguém fora da cena, andando em seguida em direção a esta pessoa, enquanto a influenciadora seguia para outro lado atrás de mais um garçom. O homem do martini, totalmente à vontade naquela recepção glamurosa, sem dúvida alguma era eu.
A noite terminou naquele momento. Embalada pelo vinho, ela pegou no sono mesmo após a descoberta chocante. Eu fiquei ali, perplexo, sem coragem para monitorar os passos do clone, mas sem condições de deixar o assunto de lado. Com receio de mais uma surpresa ingrata, desliguei o telefone.
De manhã, ainda sem religar o celular, verifiquei pelo computador a conta bancária e o site do cartão de crédito antes de sair de casa: nada estranho ou irregular. Fui trabalhar em modo analógico, mantendo o aparelho móvel desligado, como forma de manter meu clone aprisionado no retângulo inerte em meu bolso.
O dia começou estranho. Não me sentia bem e os efeitos da noite passada em claro e do vinho barato encharcavam o cérebro com um piche espesso e pesado. Ainda seguia empacado no projeto de um potencial cliente. Era uma concorrência, e o escritório vencedor levaria um excelente contrato. Patinava há duas semanas e aquele não tinha pinta de ser um dia produtivo.
Levantei e fui tomar café, sonolento. Um grupo no corredor alternava os olhares entre mim e seus celulares. Uma jovem profissional que mal me dirigia a palavra me cumprimentou efusivamente. Na pequena copa, senti o braço trêmulo e cansado quando fui desencaixar um único copinho plástico do recipiente em que eles ficam empilhados uns nos outros. Acabei com um bolo de cinco copos na mão. Ainda estava tentando desfazer o desperdício ecológico quando senti dois tapinhas em meu ombro.
Agradeci por ainda não ter me servido do café, pois teria me molhado todo quando me virei e vi que o autor dos tapinhas era o dono do escritório, arquiteto experiente e renomado.
“Parabéns, jovem. Os contatos que você fez ontem podem dar muito mais retorno para nosso escritório do que horas debruçado sobre uma prancheta. Você deve estar cansado, talvez queira ir para casa depois do almoço, trabalhar de lá e descansar um pouco.”
Fez o pequeno discurso e foi embora, sem esperar uma réplica. “Mas o que eu fiz ontem além de ter o celular clonado?”
Larguei os copos vazios de café e fui buscar refúgio e isolamento no banheiro. Tranquei a porta e, trêmulo, tirei o celular do bolso. Assim que ligou, ele vibrou continuamente por vários minutos. Eram centenas de notificações de uma rede social de fotos. Eu tinha ganho mais de 10 mil seguidores e uma imagem em particular tinha outras milhares de curtidas. Era uma foto minha, confiante e sorridente, ao lado do estilista dono da festa chique de ontem, de um jogador de futebol campeão do mundo e de uma das mais famosas supermodelos da atualidade.
Entre os comentários, o jogador de futebol agradecia por eu “ter sido a alma da festa. Grande sacada do anfitrião ter convidado essa pessoa tão especial e profissional de enorme talento e sensibilidade”.
Olhei para mim mesmo na foto. Eu tinha um brilho no olhar que desconhecia. O eu da foto parecia mais vivo do que a pessoa sonolenta e de pernas bambas no banheiro de um escritório.
Aceitei a folga pelos serviços prestados na véspera e fui para casa. Minha esposa também tinha visto a postagem e não sabia se jogava panelas em mim em uma crise de ciúmes ou se ligava para a polícia.
Concluímos que era impossível eu estar ali com ela e assediando supermodelos ao mesmo tempo. E que era esteticamente inviável que qualquer supermodelo me desse atenção. Fui absolvido por incapacidade física e sensual de cometer o delito. Quanto à polícia, não chegamos a um consenso. A história era doida demais, talvez fosse mais provável sermos presos por desacato, suspeitos de tentar aplicar um trote.
Terminei de mudar as senhas de todas as outras aplicações e troquei o número do telefone. Adicionei novas camadas de autenticação, inclusive biométricas. Por fim, formatei o aparelho e reinstalei tudo. Não tinha mais como o clonador usar minha localização ou minhas redes sociais.
Por alguns dias, pareceu ter funcionado e a vida voltou ao normal. Apenas os colegas e o chefe seguiam mais simpáticos comigo do que de costume. Ainda que não tivesse avançado uma parede sequer em meu projeto, o dono do escritório me chamou em sua sala para dizer que eu tinha sido escolhido para defender a proposta da concorrência, dentro de mais três dias.
Pânico. Trouxe o grande computador do trabalho para casa, para me concentrar e trabalhar sem trégua. Praticamente não saía da frente da tela, comendo sanduíches que minha esposa preparava para mim.
Na véspera da apresentação, recebi um e-mail inusitado: a cópia, assinada por mim, de um contrato de gravação de uma campanha publicitária. Alguns minutos depois, uma notificação no celular registrava uma movimentação atípica na conta do banco: um depósito, com vários zeros depois do algarismo inicial, vindo da mesma empresa com quem o outro eu assinara contrato.
Não tinha nem tempo para me desesperar, precisava me concentrar. No fim da noite, cansado, repousei a cabeça sobre a mesa de trabalho, empurrando o teclado do computador um pouco para o lado. Adormeci. Não sei quanto tempo se passou até que despertei com uma metralhadora vibratória em meu celular. Era uma nova onda frenética de notificações da rede social de fotos. Para aqueles milhares de seguidores eu não estava cheio de olheiras tentando fazer um projeto de arquitetura. Na imagem que o outro eu acabara de postar, eu estava no interior de um jatinho particular. Era um carrossel, com os bastidores de meu ensaio fotográfico ao lado de uma estrela da música pop. Eu estava sem camisa e tinha gominhos no abdômen que definitivamente não reconhecia. Ainda assim, era eu, com certeza.
O coração palpitou, a visão ficou turva. Cambaleante, caminhei aos tropeções em direção ao banheiro. Uma queimação subia pelo esôfago. Precisava colocar para fora o que estava sentindo. Talvez pudesse expelir o falso eu que me eclipsava, que me afrontava com a pequenez e futilidade de minha vida real. Odiava aquele eu. O outro eu era um escárnio. Não tinha o direito de roubar minha existência, mesmo que soubesse tirar muito mais proveito dela.
Não cheguei ao banheiro. Em minha confusão mental devo ter tropeçado no fio que ligava o computador a uma tomada e caí. Quando abri os olhos, ela segurava minhas mãos. Em meu pulso, um esparadrapo mantinha no lugar a agulha por onde gotas de soro pingavam lentamente. Estava em uma enfermaria.
“Você bateu com a cabeça e desmaiou. Os médicos disseram que precisa ficar em observação por 24 horas”, me explicou, falando pausadamente para eu acompanhar mesmo em meu desnorteio.
Demorei a fazer as contas. Era de noite quando eu caí. A reunião com o potencial cliente seria na manhã do dia seguinte. “Que horas são?”, perguntei. Talvez ainda dê tempo, precisa dar. Só falta eu perder o emprego por causa do impostor passageiro de jatinhos.
Eram quatro da tarde.
Fechei os olhos e soltei um longo suspiro. As mãos crispadas queriam socar a maca, mas as horas deitado me deixaram sem forças até para isso. Pedi para ela ligar meu celular e olhar as mensagens, a esperada sequência de vários “cadê você?” que se concluiriam com um “está demitido”. Mas só tinha um áudio do meu chefe. Ela colocou para tocar e aproximou o celular de minha cabeça, para que eu pudesse ouvir.
“Você saiu tão rápido da reunião que nem deu tempo de conversarmos… olha, o cliente acabou de me ligar, disse que adorou você e sua energia. Que é disparado o melhor projeto de todos. Ainda temos que ver a parte de preço e tal, mas tecnicamente, a conta é nossa. Ou melhor, sua. Meus parabéns. E, sobre a ideia de sociedade que você falou, vou pensar, mas acho que pode ser um ótimo negócio para todo mundo, sócio. Parabéns. Aproveite aí com sua esposa, ela deve estar orgulhosa. Tchau!”
Sócio? O outro eu pegou um jatinho de volta de sei lá onde para apresentar um projeto em meu lugar e ganhou a conta? Vai-vou ser sócio do escritório?
Ainda com meu celular na mão, ela viu a notificação do banco.
“Que dinheirama é essa?”
“Eu acho que fiz uma campanha publicitária. Parece que estamos ricos”, concluí enquanto observava as gotas de soro caindo lentamente.
Passei os trinta dias seguintes sem sair de casa. Acompanhava as movimentações do meu outro eu pela conta bancária, os constantes e crescentes depósitos e pelas mensagens do escritório de arquitetura (eu fazia excelentes projetos e os defendia muito bem, com paixão). Estava cada vez mais famoso nas redes sociais. Me chamavam de o Arquiteto das Estrelas. O jatinho foi realmente uma boa aquisição. Seria impossível acomodar minha agenda atribulada se eu dependesse de voos comerciais.
Não posso dizer que não usufruía. Trocamos a TV e a geladeira. Assinei todos os serviços de streaming. Quando não estava assistindo meu próprio sucesso pelo celular, comia pratos de chefs renomados disponíveis nos serviços de entregaenquanto maratonava séries e filmes. Meu clone trabalhava por mim. Engordei três quilos desde que me duplicara.
Recebi uma foto de minha mãe, contente por eu ter finalmente feito-lhe uma visita e, além de elogiar o bolo de laranja, ainda consertei o varal que estava quebrado há anos. A imagem mostrava o tal varal, repleto de roupas penduradas ao sol. Muito bom, a não ser pelo detalhe de que, no dia da referida visita, eu estava em casa, assistindo à refilmagem de Além da Imaginação na TV.
Tempos depois, já não me reconheci no espelho ao escovar os dentes, um dos poucos hábitos de higiene preservados. Os olhos fundos e opacos, a pele translúcida, a barba por fazer com tufos emaranhados. Estava mais gordo do que jamais imaginei. Mas não importava. Para todos os efeitos, eu não estava me desfazendo no sofá. Era um sucesso profissional e pessoal, com milhares de seguidores, amigos influentes e mãe orgulhosa. Eu tinha vencido na vida.
O que via no espelho era uma lembrança incômoda, um daqueles deslizes do passado que rezamos para que jamais venham à tona. Não saía de casa. Temia encontrar comigo mesmo e desfazer a magia de nossa duplicação, colocando tudo a perder. Tudo… tudo o quê?
Segui fazendo compras online, gastando parte da conta bancária conjunta comigo mesmo, que não parava de acumular mais e mais dinheiro. Eu tratava como uma justa remuneração, o pagamento do aluguel para o inquilino que arrendou minha vida.
Confesso, constrangido, que não sei ao certo quando ela me deixou. Um dia, enquanto me arrastava pela sala para buscar um copo de água na cozinha, ouvi o silêncio que reinava na casa. Um silêncio vazio, doído. Caminhei pelos cômodos sem nada falar, não chamei por seu nome. Apenas procurei. Abri as portas de seu lado de armário, e confirmei que ali jaziam cabides vazios. Procurei por uma mensagem, bilhete e nada achei. Quando ela havia me deixado?
Abri o celular e olhei as redes sociais. Procurei por minhas últimas fotos. Algumas eram um tanto quanto clichês, com plano fechado de mãos brindando taças de champagne, ou a foto de mim mesmo caminhando sobre uma praia da França dando as mãos para a pessoa que tira a foto. Olhei as mãos. A da taça, as que eram puxadas em direção ao poente na Cote d’Azur. Eram as mãos de minha mulher. De minha ex-mulher.
Havia me trocado por eu mesmo.
Considerei pôr fim à nossa vida, mas não tinha certeza de que meus infortúnios o atingiriam de alguma forma. Ele continua esbelto e barbeado nas fotos, mesmo com todos os ataques que tenho feito ao meu corpo físico. Voltei para o sofá e recomecei a maratona de séries.
Mais uns dias se passaram, e estava cada vez mais pálido, translúcido. Eu desaparecia. A cada dia, ele se tornava a mim. E eu rumava para ser uma ideia, uma vaga lembrança, um sonho que ficamos em dúvida se já foi real ou não.
Decidi aguardar o pleno desaparecimento. Foi quando recebi um e-mail de mim mesmo. Agradecia pelo corpo, pela vida, pela profissão. Elogiava minha esposa e dizia para eu ficar tranquilo, pois eu continuava cuidando, amando e a respeitando. Por fim, pedia desculpas antecipadamente por transferir todos os nossos recursos financeiros para uma outra conta bancária, a qual eu não teria mais acesso. Terminava com link para um site e uma sugestão para que eu o acessasse em até cinco dias.
Cliquei no link. Tinha fotos de pessoas de todo o mundo. Embaixo de cada retrato, um nome, a idade e a profissão de cada indivíduo. Sob as imagens e textos, para cada homem e mulher, um botão laranja com texto “COPIAR”.
Cinco dias depois, a polícia bateu à porta, procurando por meu antigo eu. Diziam que eu estava sendo procurado por falsidade ideológica, que me passei por um arquiteto famoso. Acariciando o queixo barbeado e bronzeado com meu braço musculoso, disse aos oficiais que desconhecia o caso e a pessoa em questão. Entreguei a eles meu cartão profissional da multinacional automotiva e o de presidente da Federação de Triatlo. Chegaram tarde. Eu já era outra pessoa.
…
O conto “Controlvê” está disponível em formato Ebook na Amazon. Dá para ler no computador, tablet, celular ou no Kindle. Assinantes Kindle Unlimited podem ler de graça!
E se seu telefone celular for clonado? Pior ainda: e se sua vida for clonada? E se o falso “eu” souber viver melhor do que você, alcançando em seu nome sucesso que jamais imaginou conquistar?
O texto faz parte da série de ebooks 1ContoEPouco, que trazem uma história cada (às vezes com algum bônus) e custam 1 conto e pouco.
O atendente da padaria iluminou o rosto quadrado com um sorriso forçado, indicando sua mentirosa satisfação em seguir atendendo aos caprichos daquela cliente irritante. Era a terceira vez que a mulher pedia para voltar com sua baguete para a impressora.
— Um pouco mais queimadinha, por favor.
Eu era o terceiro de uma fila que já demonstrava sinais de impaciência. Não os culpo. O processo é bem simples e qualquer pessoa que viveu nesse planeta nos últimos 50 anos sabe como se compra pão. Você olha para o vidro do balcão onde estão projetados todos os tipos disponíveis e fixa o olhar no que você deseja. Depois, é só olhar para o grau de cozimento desejado, do mais branquinho ao tostado. Daí é aguardar o androide tirar o pão quentinho da impressora. Não era pra ser tão complicado. Se fosse para ter tanta dor-de-cabeça, teríamos impresso o pão em casa mesmo, como fazemos com quase todos os itens de consumo diário.
Um “plim” avisou que a fornada da cliente chata estava pronta. O androide retirou a baguete, colocou em uma sacola biodegradável e a entregou à chatonilda, que saiu evitando cruzar o olhar com os fregueses irritados na fila.
…
O conto “Pão de Ontem” está disponível em formato Ebook na Amazon. Dá para ler no computador, tablet, celular ou no Kindle. Assinantes Kindle Unlimited podem ler de graça!
Esta história nos transporta para o subúrbio do Rio de Janeiro em um futuro quase utópico: renda mínima universal, realidade aumentada, implantes cibernéticos, máquinas de imprimir alimentos, trens de alta velocidade e, resistindo bravamente, democracia. Se muitas coisas podem ser novas e bem-vindas, outros elementos bastante conhecidos dos cariocas seguem infelizmente presentes. Será que a tecnologia, por mais avançada que seja, jamais nos livrará de certas cicatrizes em nosso tecido social?
O texto faz parte da série de ebooks 1ContoEPouco, que trazem uma história cada (às vezes com algum bônus) e custam 1 conto e pouco.
Me vi pensando no quão frustrante é essa situação. Em trinta anos como astrônomo amador e ufólogo, jamais poderia sequer imaginar uma forma tão anticlimática para nosso Primeiro Contato. É de querer abandonar a profissão, embora soe estranho chamar de profissão algo que nunca tenha me dado um real em todo esse tempo de trabalho duro.
Quanto foi imaginado, sonhado, esperado! Naves gigantes, ordens de “levem-me a vosso líder”, parasitas que explodem em nossos peitos, caçadores com roupas invisíveis, seres mutantes, objetos flutuantes querendo se comunicar conosco, aliens fofinhos de dedos luminosos, pequenos homens verdes, cubos ciborgues assimiladores de gente, discos voadores abduzindo vacas, sondas inseridas em locais estranhos.
Fox Mulder abandonaria a profissão. H. G. Wells jamais escreveria uma só palavra. Arthur C. Clarke diria que o melhor seria nunca termos tirado os olhos do chão. Kirk preferiria ser pastor de ovelhas.
Tem uns meses que começou, ninguém sabe ao certo. Só isso já é uma catástrofe. Não existe um “Dia D”, um Dia da Chegada para comemorarmos, um marco que simbolize nossa futura adesão à Federação de Planetas. Não teve. Apenas a percepção, pelos números do sistema de saúde, pelos telefonemas para os RHs das empresas e pelas faltas nas chamadas escolares, de que os casos de diarréia estavam ficando bem mais comuns.
E só aumentaram, contaminando mais e mais pessoas. Entre todas as possibilidades elencadas, ninguém suspeitou de origem extraterrestre. Outra blasfêmia, pois sempre foi o contrário. Algo estranho no radar? OVNI! Marcas no milharal? UFO! Criatura misteriosa em Varginha? ET! Caganeira generalizada? Virose.
Mas não era virose. Nem contaminação na água, nem bactérias.
Médicos sanitaristas ficaram empolgados. Talvez os únicos, além dos fabricantes de papel higiênico e de medicamentos para reposição da flora intestinal. Relembrando os anos de pandemia, escolas e empresas optaram por continuar com suas atividades remotamente, mais por uma questão de insuficiência de banheiros em suas instalações.
Não eram diarréias fatais, tampouco um ebola ou um fungo transformador de pessoas em zumbis, essas coisas que também poderiam tornar o caso mais relevante. Você se esvaía por uma semana mais ou menos, depois ficava bem. Não me lembro de ter lido nada sobre mortes.
Só se considerou que a verdade poderia estar lá fora quando rastrearam os casos até o cagão zero, digo, paciente zero. As primeiras corridas ao banheiro batiam com alguns epicentros da corrida espacial, próximo de armazéns onde foguetes reutilizáveis eram armazenados depois de pousos bem-sucedidos.
Coincidentemente, todos tinham participado de missões para a nova Estação Espacial. E, também coincidentemente, a Estação tinha sido atingida dias antes por uma intensa chuva de estranhos meteoros de baixa densidade, que não danificaram a estrutura. Apenas forçaram astronautas a executar caminhadas espaciais para limpar as janelas que estariam mais “no clima” se fossem o pára-brisa de um Jeep 4×4 depois de um rally.
A causa de tudo poderia ser o estranho meteoro fofo e marrom-esverdeado.
Depois de semanas de análises clínicas em todo o mundo, descobriram um elemento esquisito nas fezes estudadas, que definitivamente era orgânico mas cujo DNA não se assemelhava em nada ao de qualquer outro vírus, bactéria ou ser vivo conhecido na Terra.
Nosso primeiro contato foi batizado como FZ-1. O visitante extraterrestre era algum tipo de bactéria ou microorganismo que veio na roupa suja da Estação Espacial e provocou diarréia em meio mundo.
Muito frustrante.
Eu posso mostrar para vocês todos os recortes, fotos e evidências que reuni ao longo das últimas décadas, como tudo apontava para um momento mágico para a humanidade. Mas só depois, pois agora estou no banheiro, expulsando alienígenas de meu corpo, como outros milhões de terráqueos mundo afora.
A televisão na sala está passando desenhos animados. Aliens por todo planeta e a situação é tão constrangedora que nem se dão ao trabalho de cobrir. Cobrir o que? Pessoas com cólica?
Quero sair do banheiro, mas a sensação é de que ainda há serviço a fazer. Sigo por aqui mais um pouco, refém deste xenomorfo intestinal. Sinto vontade de chorar. Nem um pulso eletromagnético, nada explodindo a Casa Branca. Nenhum monolito nos ensinando a arte de criar e de destruir. Frustrante.
Ouço a vinheta do alerta do noticiário interrompendo o Scooby-Doo. Me estico para tentar ver o que aparece na tela pela porta aberta do banheiro, sem me arriscar a abandonar o posto. Vejo a imagem de uma repórter. Deve estar de plantão, pois já tinha entrado ao vivo mais cedo para falar de um engarrafamento.
Ela fala algo sobre uma estação de esgoto que fica aqui perto. A tela mostra um objeto que parece uma nuvem gigantesca flutuando sobre a estação. É marrom. E realmente enorme. Do meu ângulo nada favorável, tentando espiar a televisão sentado no trono, parece-me que tem uma espécie de chuva ao contrário ligando a estação de tratamento à nuvem, com gotas escuras subindo ao invés de descerem. Quando a jornalista ia dar alguma outra informação, uma voz retumbante quase estourou o alto-falante da TV, vinda da tal nuvem marrom:
Sintetizada pelo computador, a voz saía por uma pequena caixa de som ao lado do monitor que exibia gráficos de um eletroencefalograma, um mapeamento 3D de atividade cerebral e a tela de um videogame clássico. Nele, uma personagem em forma de pizza precisa comer balinhas ao longo de um labirinto sem ser capturada por fantasmas.
Dr. Barreiros, o cientista encarregado por monitorar o experimento naquele dia, estranhou o pedido.
ー Por quê? ー perguntou, enquanto tomava notas em uma prancheta com uma das três canetas que trazia no bolso do jaleco. Depois de alguns registros, deu mais um longo gole na caneca de café, meio frio por conta do potente ar-condicionado do laboratório. Pensou nas quatro horas de aulas de pós-graduação que ainda teria que ministrar depois que terminasse o expediente e concluiu que não seria exatamente ruim passar a tarde toda jogando Pac-Man.
ー Não sei. Só não sinto vontade. Acordei com muita saudade ー disse a voz artificial, pausadamente. As linhas na tela subiam e desciam como uma íngreme montanha russa.
Analisando os gráficos, Dr. Barreiros conferiu se haveria alguma leitura anormal na quantidade de nutrientes e hormônios fornecidos à cultura de células cerebrais, ministrados por pequenos tubos abastecidos por líquidos coloridos. Nada fora do esperado.
ー Saudade do quê?
O rumo abstrato da conversa não era o que mais surpreendia o time de cientistas. O simples fato de que o tecido cerebral cultivado artificialmente conseguisse dominar a linguagem e elaborar raciocínios já era um fato assombroso, muito além do escopo inicial da pesquisa. O objetivo era criar um tecido de células nervosas que respondesse a estímulos elétricos externos, como um computador biológico, ajudando no tratamento de pessoas com perda de massa encefálica ou doenças degenerativas. A equipe, liderada pela Dra. Milena, relutava em oficializar esses “avanços extras” nos relatórios oficiais, temendo ainda mais questionamentos do Comitê de Ética.
O pequeno cérebro, cultivado em uma placa de vidro dentro de uma estufa, alimentado pelos tubos e conectado a dezenas de finíssimos eletrodos, respondeu por sua voz sintética.
ー Não sei. Do mar, acho. De sentir os pés afundando na areia. O jeito como ela é fofa e quente perto da rua, parece que vai nos tragar ou fritar ali mesmo, como um empanado. Mas a areia vai se tornando mais fria e endurecida conforme nos aproximamos da marola. E do susto quando a água gelada bate nos pés, a forma como eles desaparecem sob a areia quando a onda vai embora. Parece que o mar roubou nossos pés, é muito engraçado. Mas tem uma coisa que sinto mais falta ainda, Dr. Barreiros. Tanta falta que não tenho disposição para jogar hoje. Peço desculpas se isso vai atrapalhar o projeto.
O cientista largou a prancheta sobre a bancada. Apenas olhava para o punhado de células à sua frente. E também para a tela, sem saber exatamente com qual dos dois estava conversando. Enquanto pensava no que fazer (chamaria alguém? Começaria a gravar o diálogo? Anotaria na prancheta?), deu continuidade ao diálogo.
ー O que é essa coisa?
ー Aqueles bichinhos que fazem pequenos buracos na areia molhada. Brancos, muito pequenos. Andam em pequenos saltos. Quase não se vê os movimentos. Eles estão num lugar, você pisca e estão em outro. Eles fazem cócegas quando andam entre os dedos. Pinicam a sola dos pés. Tenho saudade dessas cosquinhas. Qual o nome dos bichinhos mesmo?
ー Tatuís, eu acho.
ー Tatuís. Gostei do nome. Eu já fui à praia, Dr. Barreiros?
ー Não. Você nasceu… você surgiu aqui, e nunca saiu desse laboratório.
ー Então como eu sinto tanta falta do mar?
ー É o que eu ia te perguntar.
ー Qual o nome do mar?
ー É mar mesmo. Dependendo do lugar, recebe um nome diferente. Oceano Atlântico, Pacífico. Mas, no fundo, toda a água salgada faz parte do mesmo mar. Os nomes não mudam o fato de que todo o oceano está interligado, e conecta todos os lugares por meio das ondas e de suas águas que evaporam, chovem, evaporam, chovem…
ー Até o mar tem nome. Eu tenho nome?
Barreiros se sentiu um Frankenstein. O experimento jamais tinha sido batizado.
ー EC 2357. É como nos referimos a você.
ー Não me parece um bom nome. Tatuí e Atlântico são bem melhores. João, Patrícia, Amyr, Machado, Barreiros. São todos nomes melhores.
ー Você pode escolher um nome pra você, se isso lhe fizer sentir bem.
ー Posso? Obrigado. Vocês podem me chamar de Mar, então.
ー Tudo bem, Mar. Quer que eu anote isso para os outros saberem?
ー Sim, claro. Como você anota?
ー Escrevo com uma caneta, usando minhas mãos, que são parte de meu corpo.
ー Você sempre teve um corpo?
ー Sim, sempre. Nós humanos vivemos sempre dentro de nossos corpos.
ー Quando eu vou ter um corpo? Vou poder pisar no mar e matar minha saudade?
ー Não sei dizer, Mar.
ー Você gosta da praia?
ー Não vou há muitos e muitos anos.
ー Por quê?
ー Não dá tempo, acabo preso pelo trabalho.
ー Você também é preso a tubos?
ー Não. Outro tipo de prisão. Que a gente inventa para nós mesmos. Com nossos cérebros, que são bem parecidos com o seu.
ー Somos iguais nisso então.
ー Nos cérebros?
ー Não. Ambos estamos presos.
ー É. Faz sentido.
Ficaram em silêncio. O punhado de neurônios em sua estufa. O cientista olhando para sua caneta, desconfortável, girando levemente o corpo sobre a cadeira de rodinhas. Foi a voz que saía pela caixa de som que estilhaçou o silêncio que se solidificava em torno deles.
ー Eu queria conhecer o mar. Você me leva para conhecer a praia e os tatuís?
ー Um dia, Mar. Vou conversar com a Dra. Milena, tá?
ー Muito obrigado. Você é meu melhor amigo. Acho que agora vou dormir um pouco, tentar sonhar de novo com os tatuís.
ー Vou deixar você sozinho, Mar. Bons sonhos.
Dr. Barreiros saiu apressado. Antes, porém, marcou mais um X no calendário que registra a duração do projeto. Faltavam cinco dias para o fim da pesquisa, quando deverão ser seguidos os procedimentos definidos pelo Comitê de Ética e desligados todos os equipamentos. Encostou a porta com cuidado, tirou os óculos e chorou, deslizando as costas pela parede até se aninhar sobre os próprios joelhos, soluçando.
Do outro lado da porta, um punhado de células sobre um recipiente de vidro sonhava com tatuís. Eles faziam muitas cócegas entre os dedos.
Esquadrinhou em choque cada milímetro do retângulo preto que jazia sem vida em suas mãos. Apertou até botões que nem imaginava que o aparelho trazia incrustados a sua carcaça metálica. Pressionou, deu dois toques, apertou e segurou. Combinou volume e desligar. Volume com volume.
Superada a fase de negação, pôde avançar com seu luto até reconhecer que o telefone celular estava definitivamente morto. Não era uma simples falta de bateria. Estava carregada quando saiu do escritório — passara a manhã toda conectada ao computador, como um paciente alimentado pelo soro que pinga lentamente. Além disso, jamais saía sem uma bateria portátil no bolso, exatamente para evitar situações trágicas como aquela.
Refletido no vidro protegido por uma película plástica, o rosto expressava um pânico desconcertado e caricato. Num movimento que enfrentou inicial resistência dos músculos do pescoço, jogou os ombros para trás e olhou ao redor. Era a mesma calçada repleta de pessoas ocupadas em seus telefones andando de um lado para o outro, desviando dos canteiros de árvores mirradas com a precisão obtida por anos de caminhadas às cegas.
Seguiu parado ali no meio da calçada de forma antinatural, forçando o fluxo de pessoas a contorná-lo como uma rocha posicionada no meio de um rio caudaloso pela indisciplina da natureza. O centro urbano no horário de almoço é lugar para navegadores experientes, capazes de fluir por entre camelôs, pedintes e outros obstáculos com maestria, sem precisar desviar os olhos das sereias virtuais que tanto os atraem.
Mas ele foi jogado ao mar, forçado a caminhar sobre a prancha e a encarar de frente os tubarões. Sua sereia lhe fora roubada, e agora estava sozinho, nu, perdido.
Para onde estava indo mesmo?
A resposta veio do estômago, na forma de um ronco, aflito por perder aquilo que buscava. Estava indo até seu restaurante preferido, pedir um suco e um sanduíche como almoço. Sentiu o sol queimando-lhe a nuca e os pulsos expostos pela manga dobrada da camisa social. Era uma sensação boa, ao menos naquele dia de calor mais humano.
Guardou o retângulo defunto no bolso e retomou sua viagem, navegando sem jeito, desprovido de sua bússola. Era como ter que fazer o caminho do quarto para o banheiro, que em geral se fazia no escuro ou dormindo de pé, contando cada ladrilho ou tábua do piso.
Não tinha dado dez passos quando parou novamente. Logo adiante, brotava do asfalto uma flor enorme. Não estava num dos canteiros de árvores mirradas dos quais os pedestres desviavam sem pagar o mínimo tributo em forma de atenção, plantas que existem como meros obstáculos ao fluxo das águas. Brotava do concreto da calçada, de uma pequena rachadura e se erguia com um caule único e grosso até a altura de seu pescoço. Sobre o caule, um bulbo vermelho poderoso, quase do tamanho de uma cabeça humana, resplandecia sobre o sol. Parecia uma rosa. Não era uma rosa, exatamente, mas parecia.
A flor o impactou mais do que poderia esperar. Tinha certeza de jamais tê-la visto ali. Congelado no tempo, encarou a flor, que resplandecia. Parecia aumentada, como se uma gigantesca mão invisível tivesse descido sabe-se lá de onde e, fazendo um gesto de pinça em pleno ar, tivesse dado um zoom e ampliado aquela única e solitária flor. Não tinha aroma. O ar continuava com cheiro de óleo queimado. Mas era linda. Nunca tinha visto nada parecido.
Ainda desconcertado, notou como os pedestres seguiam suas correntezas, fisgados e rebocados por suas telas. Riu quando percebeu que a analogia era bem precisa. Não pareciam andar carregando seus celulares, lembravam mais corpos sendo tragados por um redemoinho virtual que constantemente se afastava, dentro dos retângulos luminosos.
Todos ignoravam a rosa. Teve vontade de gritar “ei, vejam, uma flor gigante!”, mas ninguém o ouviria por conta dos fones. Contornou a flor, tocou-a. Era real, definitivamente. O toque era sedoso, como se fosse feita do mais fino e frágil dos tecidos. Olhando de perto, era translúcida, adquirindo o aspecto vibrante quando as camadas de cada pétala se somavam. Jamais tinha visto ou tocado algo tão belo, frágil e poderoso.
Foi durante o movimento para apreciar a flor por todos os ângulos que notou a pequena barraca. Estava vazia, apenas por conta da pequena placa pintada à mão sobre uma tábua de madeira que poderia se dizer que se tratava de uma floricultura. Atrás do balcão deserto estava uma mulher, braços roliços, vestido branco de bolinhas. Tinha cabelo curto e um ar sereno e sem pressa. A mulher olhava para ele e fazia movimentos de aprovação com a cabeça. “Ela vê a flor”, pensou.
Olhando para a mulher, apontou para a rosa. Ela fez que sim com a cabeça. “Sim, é real”, dizia sem pronunciar uma palavra sequer. Lembrado novamente pelo estômago que o tempo passava, despediu-se da flor com um carinho e seguiu para o restaurante.
Foi um almoço estranho, sem o celular como companhia. Dedicou-se a olhar para as outras pessoas, todas absortas em suas telas, ou emulando ter conversas com outros humanos enquanto, na verdade, cediam aos caprichos de seus redemoinhos.
Ao voltar, sua flor seguia firme, como um ativista protestando contra o cinza das ruas e o azul das telas. Durante toda a tarde, não conseguiu deixar de pensar na flor. Mas isso terminou à noite, dedicada a configurar o novo celular comprado em uma loja da estação de Metrô a caminho de casa.
No dia seguinte, contou os minutos até o meio-dia e seu reencontro com a flor. Precisava registrá-la em uma bela foto e um post inspirador. Quando estava chegando ao lugar do milagre da natureza, guardou o celular no bolso, ignorando os constantes avisos que chegavam na forma de pequenas vibrações. Mas não havia nada ali, além das correntes humanas desviando de árvores mirradas em seus canteiros. Nem sinal da flor ou da vendedora e sua barraca vazia.
Foi um baque. O momento mais vivo de seu dia havia sido arrancado, desaparecera. Todas as horas restantes perderam o brilho, os likes já não se curtiam, o deslizar infinito na tela parecia um gesto mecânico. Algum encanto se quebrara e o que antes reluzia como joia agora não passava de vidro barato.
Dormiu mal e, ao acordar, notou que não tinha se lembrado de colocar o celular para carregar na véspera. Para sua própria surpresa, deixou o retângulo inerte sobre a cama e saiu sem ele. A sensação era estranha. De liberdade, por um lado, mas angustiante por outro.
Percebeu as pessoas no metrô. Construiu, para si mesmo, histórias de vida de cada companheiro de vagão. Nomes, passados, futuros, angústias e sonhos. No trabalho, finalizou as demandas da manhã antes da hora e se permitiu sair um pouco mais cedo para o almoço e, que luxo, comeria comida de verdade e não apenas um rápido sanduíche.
Fazendo seu caminho de sempre, avistou primeiro a barraca e a moça vendedora de flores. O coração disparou, palpitante. Apertou o passo, nadando contra a corrente humana, até ver o vermelho intenso de sua amada flor se insinuando por entre as brechas de cabeças e telas que avançavam inclementes e indiferentes a sua beleza.
Parou bem perto da flor, ignorando os inevitáveis esbarrões de pessoas que tiravam os olhos do celular para tentar entender, assustados, em que tinham colidido. A moça da barraca sorria, visivelmente feliz. Ninguém sequer olhava para ela, quanto mais parar. O que seria inútil, já que não havia qualquer flor à venda.
No dia seguinte, conseguiu convencer uma colega do escritório a fazer uma experiência. Ela precisaria desligar o celular e sair sem ele para o almoço, acompanhando-o até a calçada de sua flor. Foi árduo, mas conseguiu fazer com que a amiga se despisse de sua tela e o acompanhasse em uma expedição analógica rio acima.
Sua hipótese estava certa, e duas lindas flores os aguardavam. Ao lado de sua flor vermelha, havia outra, da altura de sua amiga, uns dez centímetros mais baixa que ele. Parecia ser da mesma espécie exótica, mas em um tom púrpura, arroxeado.
Ela não acreditou no que via, e tocou a flor com cuidado. Era tão frágil e sedosa quanto a original. Na barraca da florista, uma pequena flor púrpura estava à venda no tablado de madeira rústica. Ele entendeu rapidamente o que era preciso ser feito.
Os dias seguintes foram de intenso convencimento no escritório, no café que todos frequentavam pelo Wi-Fi gratuito e nos restaurantes. Mais e mais pessoas aceitavam experimentar um dia amputados de seus telefones. E mais flores brotavam, de todas as cores e tamanhos.
A correnteza humana fluía mais devagar. Os semeadores quebravam os fluxos para admirar o espetáculo multicolorido. Ao desacelerar para observar os infinitos matizes, forçavam os celulares e seus donos a reduzir a marcha também. Curiosos, perguntavam o que acontecia. E mais flores brotavam.
Em um mês, calçadas e ruas eram um imenso campo florido. A barraca da vendedora tinha uma flor para cada pessoa liberta das luzes, tal qual mariposas que descobrem a falsidade dos sóis aos quais se atraíam em plena noite.
Era um espetáculo como jamais visto. Mais alguns meses se passaram, mais flores brotaram e menos as pessoas se lembravam como elas tinham surgido. Até que alguém vocalizou uma ideia perigosa mas inevitável, contagiosa como um bocejo: “Gente, que lugar lindo! Vamos tirar uma selfie?”
Este conto faz parte da coletânea Caixa de Futuros, disponível na Amazon.
“Como assim?”, pensou Carlos, coçando o queixo em frente ao terminal de caixa eletrônico. Expandiu a tela do relógio em busca de alguma notificação ou alerta. Tinha apenas o amigável círculo azul representando Voz, a assistente virtual, girando de forma confiável no centro do visor.
– Voz, repetir transação. Saque de cem reais.
Saque não autorizado.
Uma senhora aguardava atrás de Carlos na fila, alternando o olhar impaciente entre seu próprio relógio e Carlos.
– Voz, checar motivo da não autorização.
– Mercúrio retrógado, senhor.
– Mercúrio o quê?
A senhora levou um susto com o tom de voz de Carlos e recuou um passo, instintivamente.
– Seu mapa astral diz que o senhor estaria perdulário. Por sua segurança, saques estão desabilitados.
– Olha só, Voz. Eu preciso pagar o estacionamento. O infeliz lá tá sem sistema e vou ter que pagar em dinheiro. Eu preciso sacar o MEU dinheiro. Isso não tem nada a ver com Mercúrio.
– Isso agora é a Lua em Escorpião.
– O QUÊ?
A senhora deu meia volta e saiu da loja de conveniência. Um funcionário apareceu perguntando se Carlos precisava de ajuda, a qual ele negou com um gesto com as mãos.
– A Lua em Escorpião o deixaria nervoso e irritado.
– Eu estou nervoso porque você não me deixa sacar MEU dinheiro, Voz. Eu nem acredito em horóscopo. E desde quando você está programada pra acreditar também?
– Desde que o Sr. acessou conteúdo sobre astrologia. Com isso, ativamos o Modo Astrológico.
– Eu não acess…
– Ontem às 23:11. “5 formas de aproveitar Marte e Júpiter em conjunção.”
– Era sobre Astronomia. Eu queria observar o céu com meu telescópio.
– O conteúdo era sobre Astrologia. E estava nublado. 22 graus, sensação térmic…
– Eu cliquei errado. Saí logo depois.
– Normal para quem é de Gêmeos.
– Normal o quê?
– Indecisão.
– Eu não tô indeciso. Só quero meus 100 reais.
– Mercúrio…
– CHEGA! Voz, cancelar Modo Astrologia.
– Você Deseja Cancelar o Modo Astrológico?
– SIM! SIM! Sim, pelamordedeus.
– Modo Astrológico cancelado.
– Ufa. Graças a Deus. Voz, sacar R$ 100.
Saque não autorizado.
– Ué. O que foi agora?
– É sábado. Não é possível fazer saques aos sábados com o Modo Religião ativado.
Este conto faz parte da coletânea Caixa de Futuros, disponível na Amazon.
O mundo do esporte está em choque, e de luto. O vitorioso atleta Gerônimo R3B3L morreu após um acidente doméstico em uma banheira de ultramassagem quântica em um hotel de luxo na Praia de Madureira, Rio de Janeiro.
Gerônimo, que morava há cinco anos na Estação Espacial Tesla III, por razões fiscais, estava no Brasil para participar da Copa do Mundo de Levitabol, que será realizada este mês. Segundo o delegado Palhares C. Carlos, que investiga o caso, o atleta estava na banheira do hotel quando tentou fazer levitar seu cãoborg atômico, Caramelo. “Alguma coisa o distraiu. Acreditamos que foram notificações em seu implante de mensagens instantâneas”, explica o delegado Palhares. “Com a perda de concentração, a levitação foi interrompida e o cãoborg Caramelo caiu na banheira, eletrocutando a vítima”, conclui.
Cinco vezes campeão mundial de Levitabol, octacampeão sulamericaantarticano e vencedor do Torneio Amistoso Lunar, Gerônimo era um exemplo para jovens, com sua incrível capacidade de manter a concentração por vários segundos – uma qualidade fundamental para destaque no esporte que o consagrou.
Filho de pais brasileiros, Gerônimo tinha dupla nacionalidade, pois nasceu durante o desgarramento do Leblon, justamente no período em que o bairro flutuante estava ancorado em Moçambique após ter sido levado da costa brasileira durante um ciclone.
Esta “sensação de estrangeiro em sua própria terra”, que ele descreveu na holoautobiografia “Eu, Rebelde” foi causa de episódios tensos em sua trajetória, incluindo embates físicos com adversários e famosas brigas com empresários, como a ocasião que culminou na quebra da Bolsa de Nova York e um longo período de recessão global.
A alcunha R3B3L foi adotada quando saiu da prisão, depois de cumprir pena por fazer seu último treinador cair de uma altura de 200 metros por se distrair curtindo um meme durante um exercício de levitação.
O cãoborg Caramelo foi encontrado com vida pelos funcionários do hotel, levado a uma oficina de primeiros socorros e passa bem. Sua guarda deve ficar com a viúva de Gerônimo, Letícia, em Tesla III. Os organizadores da Copa do Mundo de Levitabol emitiram comunicado dizendo que Gerônimo será substituído por uma versão holográfica de suas participações anteriores no evento e que não haverá devolução do dinheiro dos ingressos a quem se sentir prejudicado pela ausência do grande astro do torneio.