O Youtube anunciou o Aloud, nova ferramenta que permitirá criar dublagens de vídeos da plataforma em poucos minutos. Quando estiver disponível, permitirá que creators brasileiros possam disputar espaço com youtubers de todo o mundo (e vice-versa).
Ao mesmo tempo, avançam as capacidades de tradução das ferramentas de Inteligência Artificial, tanto na qualidade dos textos quanto no volume de tokens (ou seja, de palavras) por tradução.
O Cory Doctorow, jornalista, escritor de ficção científica e um dos pioneiros digitais, usa um termo ótimo para o processo de estragação das plataformas digitais: enshittification (que vou traduzir aqui como merdificação). Em resumo, ele defende que todas compartilham um ciclo de crescimento e merdificação que passa por atrair o máximo de pessoas (alguém tem convite pro BluesKy aí?) com promessas incríveis, criar muros técnicos, psicológicos e financeiros para ninguém poder sair (inclua-se “usuários”, marcas, criadores de conteúdo e empresas) e, feito isso, espremer as laranjas até o bagaço.
Muitos aceitam os termos de uso e seguem suas vidas, não ligando para um anúncio mais invasivo aqui, o fechamento de pequenas lojas e veículos de imprensa acolá. Outros se adaptam e dedicam enorme energia a decifrar os algoritmos para “destravar” os perfis e alimentar as máquinas com temas, dancinhas, durações, termos e quantidade de palavras ditadas pelo punhado de donos de muros ao nosso redor.
Aldeias globais, descentralizadas e federadas
Gráfico mostrando a explosão (e posterior estabilidade) na criação de servidores do fediverso.
Muitos, mas não todos. Aí entram mastodontes, mamutes e afins. O movimento em torno das redes descentralizadas e federadas, o fediverso, vem ganhando força sobretudo com a merdificação acelerada de ambientes digitais, como o Twitter. Já são mais de 21 mil servidores e quase 9 milhões de contas, boa parte delas no Mastodon. A postura é punk na veia: “se não concorda com o sistema, faça um você mesmo.” Ao invés de uma rede global centralizada ditando as regras, temos uma profusão de pequenas comunidades digitais (as instâncias), sem mediação por algoritmos nem publicidade, que se integram entre si (a federação). No lugar de uma única aldeia global pós mcluhânica, temos milhares de ciberaldeias conectadas entre si. Milhares, mas não todas. O fediverso é e tende a ser fragmentado. Internets distintas que convivem, equilibrando a formação de laços locais (o local aqui pode ser literal, como instâncias de bairro, de cidades, de universidades, ou por interesse, como instâncias de esquerda/direita, LGBT, de geeks, torcedores do clube X etc).
Miguel foi conduzido ao púlpito por uma salva de palmas protocolar. A camisa social estava grudada ao corpo, ensopada por baixo do paletó, a despeito do potente ar-condicionado que acolhia as centenas de pessoas de ciência e do mundo dos negócios dispostas pelo amplo auditório. O bolo de folhas A4 com o roteiro e dados da apresentação oscilaram até o apoio. Sem saber o que fazer com as mãos recém-libertas da papelada, agarrou a borda de acrílico para minimizar a trepidação involuntária dos dedos.
A música eletrônica alta, repetitiva e irritante cessou, recuando para os alto-falantes e deixando em seu lugar uma atmosfera pesada de expectativa, um silêncio denso entrecortado por tossidas esporádicas. Duas telas se acenderam na beira do tablado, com uma contagem regressiva marcando o tempo restante em sua apresentação. Um ponto de luz vermelha na câmera montada num braço mecânico indicava que a transmissão online daquela sessão do Congresso Mundial de Ciências e Inovação já havia começado. Na tela às costas de Miguel, uma tipologia elegante anunciava o título de seu trabalho: “Sobre o deenério, suas características e a inviabilidade circular“.
Pigarreou. Pegou o bolo de folhas e bateu-as contra o acrílico para nivelar as páginas. Captado pelo microfone, o gesto retumbou pelos alto-falantes. Deu boa noite, confirmou seu nome e instituição de pesquisa, imaginando que isso ajudaria as pessoas a descobrirem que estavam na sala errada e partissem. Ninguém se levantou. Lembrou de um conselho recebido há muitos anos, antes dos mestrados, doutorados e pós-doutorados, antes de todos os discursos de agradecimento em premiações internacionais de Ciências e Sustentabilidade: ao palestrar ou dar aulas, escolha alguns interlocutores na plateia e fale para eles, olhe em seus olhos, leia suas reações. Apresente para eles, converse com eles e tudo fluirá melhor.
Lá no século passado, além de internautas, nós, humanos que usávamos a internet, também éramos conhecidos como websurfers… as pessoas “surfavam na internet”, numa analogia ao fato de irmos deslizando de um site para o outro seguindo ondas de hyperlinks. Levou uns 5 a 6 anos para que o oceano digital que estava se formando se caracterizasse como uma grande onda, com o hype contaminando imprensa, investidores e, sempre, os “espertalhões”. Foi a bolha pontocom que estourou em 2001.
A vida é em ciclos, os hypes também. A coisa de fato promete, suas expectativas são super-uber-exageradas, muita gente ganha dinheiro, mais gente ainda coloca dinheiro no negócio, ele implode, os malandros pulam do barco e os demais ficam a ver navios. É o jogo, infelizmente (mas não inevitavelmente, papo pra outro post).
Como no mar, às vezes as ondas se embaralham, o mar fica mexido, e aquela formação que prometia se esculhamba em espuma. O Metaverso foi uma dessas ondas atropeladas. Ele ainda pode retomar, com menos hype e mais conteúdo (no famoso “platô da produtividade” do Hype Cycle do Gartner Group). O atropelador? Ela, claro, a Inteligência Artificial, tema de 13 em cada 10 palestras, reuniões e conversas sobre negócios e/ou tecnologia.
O Hype é altíssimo, não sem total razão. Ao contrário do Metaverso, o impacto da IA será avassalador e disseminado, pro bem e pro mal. A razão? É claro que desconheço todas, bem como ignoro o que de fato vai acontecer no futuro, mas uma causa é clara: as pessoas.
Regra de ouro: não tire as pessoas da equação. Elas que pagam as contas e ligam os supercomputadores nas tomadas, em última instância. As pessoas, em geral, não estão sedentas por experiências virtuais em outro mundo. Mas quase ninguém vai desperdiçar a chance de poupar energia, ganhar uma dopamina extra, ficar mais inteligente e sagaz e fazer as coisas que faz melhor e mais rápido neste bom e velho planetinha mesmo. É biológico.
Incluí uma pequena seção na newsletter do Brogue com alguns dos livros que li naquele mês. Não são resenhas ou críticas literárias. É mais um diário de leitura e serve de indicação de boas opções. Sobretudo para quem aproveita as eventuais promoções do Kindle Unlimited a preços simbólicos. Resolvi compilar as quatro sugestões das duas últimas edições do The Brogue Mail. Se curtir, vale se inscrever para receber o e-mail mensal.
O homem do castelo alto – Philip K. Dick
Tenho alternado coisas novas com a resolução de lacunas imperdoáveis no currículo. Este clássico de Philip K. Dick é uma delas. Tem a série de TV no Amazon Prime para quem preferir (não vi). O livro se passa nos anos 60 de uma realidade em que a Alemanha venceu a Guerra, a escravidão é legal e japoneses e nazistas dividem o mundo. O que é brutalmente assustador é que a descrição de como seria um nazismo “normalizado” lembra demais as correntes de pensamento de certos grupos ideológicos atuais. Um dos papéis da ficção é servir de alerta para que ela jamais se torne realidade. Tá de graça no Kindle Unlimited.
Devoradores de estrelas – Andy Weir
Esse livro é do autor do ótimo Perdido em Marte. Narra a aventura de um cientista numa jornada solitária para salvar a Terra. A história é incrível (tem muitos pontos similares à Interestelar, mas isso não atrapalha) e diverte enquanto ensina, pelo tom mais científico que fantástico. O único porém é que me parece que todos os protagonistas do Andy Weir têm a mesma personalidade (que imagino serem ele mesmo). Ou seja: não tem como você não confundir o herói de Devoradores… com o Matt Damon de Perdido em Marte (e Interestelar). Eu tomaria chope com todos eles, de qualquer forma.
Entremundos – Neil Gaiman e Michael Reaves
Pizza, Milkshake de Ovomaltine, gol do Germán Cano e livro do Neil Gaiman. Todas essas são coisas da categoria “não existe XXX demais” (substitua XXX pela tal coisa). Ainda não tinha lido Entremundos, que começou a ser criado nos anos 90 e publicado em 2007. Não é a obra-prima de Neil Gaiman, mas encanta pela prosa suave e fluida, pelas analogias tão improváveis quanto lindas que fazem até batalhas com bruxos-piratas interdimensionais serem inspiradoras. Ler Gaiman é aprender a tecer mundos. Pra quem escreve, é uma sensação parecida com a que os jogadores de futebol devem ter ao ver o Messi ou Germán Cano em campo. Este também é um ebook grátis para quem tem Kindle Unlimited.
Antropoceno: notas sobre a vida na Terra – John Green
Preconceito é uma porcaria mesmo. Nunca tinha lido nada do John Green, pois não sou fã de “romances românticos para xovens” e fazia a mesma careta enojada que crianças fazem ao ver os pais se beijando. Até que resolvi dar uma chance. O Antropoceno está no título, mas o livro não é (só) sobre a cagada que a gente está fazendo, e sim sobre o fascinante ato de vivermos, de existirmos, e de deixarmos nossas pegadas. Boa parte das notas vem de temas abordados no podcast homônimo.
Se estiver procurando uma pegada Harari ou mais acadêmica, desista. São ensaios super pessoais (muitos deles escritos durante a pandemia), relacionados mais ou menos diretamente aos impactos de nossa existência sobre o planeta e sobre nossas dores, medos, alegrias e memórias. Para cada tema aleatório (que vão da CNN ao Super Mario Kart, da grama de jardim às 500 Milhas de Indianápolis) temos um ensaio e, ao final, uma nota de 1 a 5 estrelas (O Pôr do Sol ganhou 5 estrelas). Funciona muito bem e mostra como Green domina a arte de escrever. Para o livro de Green, eu dou 4 estrelas.
Todos estes títulos estão à venda na Amazon e, claro, nas livrarias tradicionais. Uma vantagem para quem se adaptou aos ebooks/ livros digitais em leitores como o Amazon Kindle é que pode-se aproveitar a leitura de livros grátis/ ebooks gratuitos para quem assina o KindleUnlimited, ou o programa de empréstimos para clientes Amazon Prime. Eu mergulhei 1000% nesse mundo.
Pou. Pum. Caiu. Abriu os olhos. Tava morto. Ergueu-se. Os soldados ainda atiravam em sua direção. Pedro, amigo de pelotão, também fantasmou ali perto. Uns espectros chineses se aproximaram. Pou. Pou. O tiroteio seguia. A turma translúcida pegou uma pedra. Pularam amarelinha pra se despedir da Terra.
Este microconto faz parte de um desafio de se escrever histórias com máximo de 300 caracteres. Pensei num conto que se passasse numa batalha. Não é um dos contos de ficção científica que aparecem por aqui mas, sem dúvida, tem uma pegada fantástica, entre o realismo fantástico e a fantasia. Espero que tenham curtido o conto.
Inebre é uma referência mundial em construção de corpos, com bilhões de seguidores. Sua habilidade lhe rende fortunas e um grande número de clientes satisfeitos, cujas mentes são transplantadas para corpos perfeitos, que vão desde réplicas de personalidades até criações semi-humanas. Gorezza, Lin e Xiam procuram o famoso consultório em busca de suas próprias jornadas de transformação, motivados por uma luta a favor do tempo, um desejo de vingança e um sonho de transcendência.
Este conto, disponível na forma de E-book na Amazon, é minha primeira história de ficção científica 18+ (temas adultos), onde exploro temáticas sensíveis como morte, etarismo, gênero e identidade. Também é o conto que teve mais apoio externo até agora. É preciso agradecer a Roney Belhassof pela leitura-beta, a minha amada Ruth Nobrega pela revisão e a Theo Araújo pela leitura sensível.
Aviso: Há uso de neologismos e/ou formas de linguagem que podem ser diferentes ou até exóticas para alguns (embora cada vez mais corriqueiras para outras pessoas), uso esse justificado pelo próprio desenrolar da narrativa. Novas realidades demandam novas palavras, e a ficção científica é o melhor terreno para exercitarmos nossa capacidade de prever as mudanças tecnológicas e na sociedade.
Já são 15 anos trabalhando diretamente com redes sociais, um tanto mais lidando indiretamente com elas. Foram as redes sociais que me fizeram dar uma guinada de carreira, por volta de 2008, quando vi que a disciplina que chamávamos de branded content precisava se reinventar para incorporar a voz do público-consumidor-criador, dividir a bola com as pessoas na hora de se criar histórias. Era o fim de um monopólio dos discursos, e isso valia tanto para marcas quanto para os grupos de mídia.
Era um mundo novo a ser desbravado, com inúmeras possibilidades, ferramentas e uma deliciosa miríade de novos atores – e autores – e pautas, temas, memes, linguagens. Tudo seria melhor, mais democrático, mais aberto e acessível, cada voz teria como encontrar ouvidos atentos e os pássaros cantariam pousados nas redes digitais como em musicais da Disney. Tudo era revolucionário, lindo e promissor.
Os sábios gurus do Choque de Cultura já nos alertaram: quase sempre as crianças bonitas viram adultos esquisitos. Não é caso perdido, tampouco motivo de abandonarmos o barco que ajudamos a construir, mas é inegável que as redes sociais se tornaram adultos esquisitos frequentando quebradas estranhas. Aquela voz que seria conquistada hoje é limitada por algoritmos ou por um balcão de negócios onde aparece mais quem paga mais. As marcas também sofrem e sofreram ao longo de vários movimentos. Lembro de uma época em que várias abandonaram seus sites institucionais para mudar suas sedes virtuais para plataformas sociais.
É claro que há muito o que extrairmos das plataformas sociais, muitas pessoas e marcas ainda constroem suas identidades, carreiras e resultados nelas. Seguimos nos empenhando em construir conteúdos relevantes para marcas (corporativas e pessoais) nas diversas ferramentas. Mais parecido com o branded content de 2008 do que se poderia imaginar à época, mas ainda firme e forte.
Mas é preciso olharmos para o macro, entendermos um mundo que acolha e utilize as plataformas sociais sem se restringir a elas. A dinâmica de redes em que se baseiam todas as ferramentas sempre tende ao monopólio, os “ricos ficam mais ricos”, e o final não é saudável para ninguém. Esse olhar macro precisa contemplar o futuro, sempre, mas também resgatar e revisitar o passado.
Antes de me encantar com as redes sociais, já trabalhava com digital. Há 27 anos, em meu primeiro emprego, o desafio era criar informativos por e-mail para pesquisadores de Ciências Sociais e Arquivologia. Newsletters, como essa que acabo de criar para os poucos e bons leitores do Brogue.
Soluções como as newsletters e plataformas como o Substack são importantes porque permitem uma relação direta, filtrada pelo interesse do público e não por um algoritmo externo. Ela se completa e se integra às redes sociais, aos sites, aplicativos, metaversos e o que mais se queira explorar. É por isso que, recentemente, adotei o Mastodon, que resgata a lógica de rede social (e não de mídia social) lá daqueles primórdios.
Que tal você também der uma chance a esta ferramenta do passado para seguirmos sonhando e imaginando o futuro? Assine o The Brogue Mail pelo formulário abaixo ou clicando/tocando aqui.
As sondas Voyager são um ano mais novas que eu, mais ou menos. Nesse tempo, editei revistas, escrevi alguns textos, comandei campanhas e projetos para marcas e tive um filho. Elas, por outro lado, visitaram planetas e se tornaram as primeiras terráqueas a deixar o sistema solar, rumo ao imenso vazio interestelar.
Comparar as duas trajetórias não é muito justo e pode ser tão irritante quanto as comparações com os primos que fizeram concurso público, ou fazer aquela busca pelo nome de alguém de enorme sucesso, talento e conquistas para descobrir que a pessoa é mais jovem que você e fez 5453454 vezes mais coisas.
Acontece. E acontece, em geral, pelas órbitas escolhidas. Tem quem faça o estilo “foguete não dá ré” e seja profunda e eternamente apaixonada, fissurada por uma coisa. Por uma única coisa a vida toda. Sabe a bailarina premiada que calçou a primeira sapatilha aos 6 anos e só pensa em ballet desde então? Essas histórias se repetem aos montes, ícones de enorme sucesso. Quem vê close não vê corre, como dizem as redes sociais. Vemos o quão longe aquela trajetória levou a pessoa, mas o que não vemos é tudo aquilo que ficou para trás, todas as coisas que atravessou como um trem-bala. Ou como uma sonda catapultada ao infinito e além.
Podemos chamar essas pessoas de “órbita caule”. Sabe o caule da flor que aprendemos a desenhar quando criança? Um “(” comprido, que normalmente adereçamos com uma ou duas folhas? É a órbita de uma Voyager, de uma primeira bailarina de uma grande companhia de dança. De um Pós-Doutor em um assunto super específico. É uma conquista incrível, louvável e cheia de corre, dores e experiências que ficaram pelas estações em que o trem não parou.
Mas tem as pessoas “pétala”, que são como os modernos foguetes reaproveitáveis, ou como satélites, que não vão muito longe da terra, mas percorrem toda ela. Como o telescópio espacial Hubble, que orbita o planeta a 535 Km de altitude (pouco mais que a Rodovia Presidente Dutra, a BR-116, que tem 402 Km de extensão) mas, mesmo não indo tão longe, nos revelou as imagens mais incríveis já captadas do universo.
Na vida em pétala, no lugar do foguete sem ré temos uma série de “vou lá e já volto”. Cada ida e vinda forma uma pétala, e sempre retornamos para um ponto de partida, como a casa, a profissão, a família, a vontade de recomeçar… A pessoa-pétala não vai tão longe, mas vê mais coisas. Vive diferentes vidas. Tem mais interfaces e conexões.
É melhor? Pior? Não tem isso. São escolhas, e escolher algo é sempre desescolher outros muitos algos. É a vida. A mesma que a Voyager tenta entender lá dos confins do sistema solar, e que muitos tentam entender daqui mesmo, explorando o planeta ou a igualmente vasta mente humana.
Todos temos nossos momentos mesquinhos e invejosos. Nessas horas, quando me pego comparando minha vida com gente-foguete, o que acontece com mais e mais frequência na medida em que a maior parte das pessoas ficam mais jovens do que você, eu recorro à Voyager e penso. “Essa pessoa conseguiu três Oscars, talvez vinte milhões de dólares ou emplacou cinco best-sellers aos 46 anos. Ela trilhou muito bem alguns caminhos, e merece todos os louros, mas não trilhou os meus passos. Só eu andei pelos meus caminhos, só eu pude apreciar a minha viagem. E, longe por longe, a Voyager percorreu distância maior que qualquer um de nós. E tudo bem.” E assim afasto a comparação tacanha da mente e me debruço sobre a pétala da vez.
É como o Neil Gaiman disse uma vez sobre o (natural) desespero de todo aspirante a escritor quando vê os textos brilhantes que ele tece: “Sempre haverá pessoas que são muito melhores fazendo isso ou aquilo – mas só você é você. (…) ninguém escreve Tarantino como o Tarantino (…) ninguém é capaz de escrever uma história de Neil Gaiman melhor que eu” (o resgate desse depoimento foi do Crisdias). E bora traçar nossos caminhos porque esses caules e essas pétalas não vão se desenhar sozinhos pelo espaço.
As comparações são tolas. Fazer concurso ou empreender? Emendar mestrado na faculdade ou mochilar pelo mundo? Ter cinco filhos ou curtir a eterna solteirice? Felizmente, não tem receita de bolo, que fatalmente achataria o mundo como uma harmonização facial de almas. Veja a Voyager, com seu Disco de Ouro carregando amostras do que é a humanidade. Ninguém chegou tão longe quanto ela, e sua bagagem inclui Chuck Berry e desenhos de gente pelada. Qualquer caminho te leva longe, é só seguir por ele. Ou não, você pode preferir voltar ao ponto de partida, sabendo que nem você, nem o ponto, serão os mesmos ao retornar.
A Voyager não é minha única contemporânea espacial. Decolando um ano antes de eu ser lançado pra fora de minha mãe, a Viking-2 descobriu gelo em Marte na semana em que nasci. A notícia foi destaque nos jornais e acabou imortalizada em”Eu Também Vou Reclamar“, de Raul Seixas. Olha a pétala aí: Uma sonda da NASA, um jornal brasileiro, um maluco beleza e, agora, um post de blog provocados pelo mesmo miolo.