A performance Crocolaser lançou a carreira internacional de Stelita
Stelita Star morreu ontem, aos 75 anos, quando sua mais recente instalação artística explodiu durante a inauguração da exposição “Fusões do Eu Interior Coletivo 3”, em Recife do Sul. O incidente provocou a evacuação completa da cidade até que os níveis de radioatividade voltem a patamares considerados seguros pelas autoridades.
Stelita iniciou a carreira artística muito jovem, buscando inspiração na fauna resistente do deserto amazônico para criar esculturas positrônicas-holográficas de alto impacto. A necessidade de sair do comum para conquistar atenção em meio a tantos estímulos audiovisuais sempre motivou a artista a sair de sua zona de conforto: “Eu acredito na arte que provoca, que eletrocuta corpo e mente, que se sobressai a partir do âmago obscuro de cada eu”, disse em entrevista na saída do hospital onde ficou internada para instalação de próteses após sua primeira turnê pela Ásia, na década passada.
Neta de imigrantes da extinta União Européia, ganhou os palcos mundiais com “Crocolaser”, uma performance de dança com crocodilos geneticamente modificados. Para muitos públicos, era a primeira vez que viam animais de verdade, e os feixes de raio laser que saíam dos olhos no mesmo ritmo da música criavam uma experiência que muitos relataram ser inebriante e quase mística.
Depois de alguns meses auxiliando na reconstrução dos teatros, pagamentos de indenizações e concluindo a fisioterapia para adaptação da nova mão mecânica, Stelita iniciou os trabalhos na que é considerada pelos críticos sua obra-prima: a torre de 120 andares feita com sanduíches petrificados de redes de fast food e iluminada pelo brilho de peixes abissais modificados, que viviam em um tanque de água mantida a alta pressão no centro da torre.
A Torre McAbissal foi visitada por 4 bilhões de pessoas durante 15 anos, até que se identificaram mutações não previstas nas criaturas. Um ano após o fechamento para visitantes, os tanques se romperam e 43 funcionários foram devorados pelos peixes até que Stelita em pessoa detivesse os animais usando seu recém-instalado braço lança-chamas.
Três anos atrás, quando ela comprou as usinas nucleares de Angra IX, X, XI e XII e as transformou em galerias de arte, já se imaginava que uma obra ainda mais ambiciosa que a Torre estaria a caminho. No entanto, a exposição “Fusões do Eu Interior Coletivo 3” revelou-se ser sua última ousadia artística.
A caixa com os átomos de Stelita recolhidos no local será exposta no Museu Guggenheim de Assunção, assim que os níveis de radioatividade o permitirem. A receita obtida com os ingressos para a visitação serão revertidos para reconstruir a cidade de Recife do Sul.
A pesquisadora, palestrante e apresentadora de holodocumentários Maria Rosetta morreu ontem, aos 98 anos, em um abrigo para bicentenários no balneário Comandante Ferraz, na Antártida. Antropóloga e arqueóloga, Rosetta ganhou fama mundial ao conseguir recuperar e religar um antigo artefato eletrônico do século XXI e recuperar centenas de hologramas 2D, chamados imagens e vídeos, que ficaram conhecido como “memes” (devido à nomenclatura do espaço virtual onde estavam armazenados no aparelho eletrônico recuperado por Rosetta).
Os “memes de Rosetta” foram fundamentais para ampliar nosso conhecimento sobre o obscuro século XXI e entender porque há tão poucos registros da atividade humana neste período e os motivos que nos levaram à beira de um colapso civilizacional, pouco antes do Grande Pulso Eletromagnético.
Além de pesquisadora, Rosetta também foi uma das últimas ativistas humanistas, tendo se recusado a atualizar ou substituir seus órgãos naturais pelos hoje populares órgãos sintéticos. Se essa resistência a levou à morte prematura (e permitiu que ela pudesse usufruir do abrigo de bicentenários antes da idade mínima legal para aposentadoria), também foi fundamental para que sua produção artística e acadêmica fosse única, trazendo um raro olhar não-aumentado e, em suas palavras “essencialmente humano e conectado a nossas raízes ancestrais, desde quando ainda vivíamos em cidades e núcleos familiares.”
Rosetta deixa quatro filhos, cinco netos e uma fundação, que leva seu nome e que se dedicará a financiar expedições submarinas para resgatar outros dispositivos do século XXI que, um dia, poderão nos ajudar a entender como e porque a humanidade passou tantas décadas sem produzir obras de arte, estudos acadêmicos, notícias, literatura e nada fez para evitar a seqüência de eventos que quase pôs fim à nossa espécie.
Rio de São Paulo, capital da União de Cidades-Empresa
Morreu ontem em Rio de São Paulo, aos 132 anos, o controverso empresário João Misk. Nascido na então cidade de São Paulo, João iniciou sua carreira como empreendedor muito cedo, quando assumiu o controle da empresa de navegação da família. Aos 25, aproveitou o período de dissolução do país para transformar seus sete transatlânticos em cidades-estado livres de impostos, que foram alugados a políticos exilados dos antigos estados e a teocracias do Oriente Médio.
Com a renda dos navios-Estado, fundou a FuckPandas, rede de fabricação e venda de itens descartáveis de plástico. Como a oferta desse tipo de produto já vinha caindo desde o começo do século XXI, João encontrou um público ávido pela comodidade e apelo vintage de itens de uso único, como pratos, talheres e copos. Alvo de inúmeros processos judiciais, Misk ficou célebre ao revelar que mais da metade da receita da empresa era destinada a advogados e lobbies para garantir acesso de seus produtos e lojas FuckPandas aos novos Estados-Empresa, sobretudo na rica Rio de São Paulo.
Vinte anos depois, sofreu forte revés ao ser condenado na Corte Internacional dos Estados-Empresa da América (CIEEA) por envolvimento direto da FuckPandas na extinção total de algumas espécies comuns no continente até o século XXI, como botos (um mamífero em forma de peixe), tartarugas-marinhas (répteis similares a drones-aspiradores) e alguns primatas. Condenado à prisão e reprogramação cerebral, exilou-se em um antigo porta-aviões que havia ganho em uma partida de pôquer (uma de suas paixões, além de comprar times de futebol), de onde declarou guerra a dois de seus antigos navios-Estado, reconquistando-os.
Unindo as três embarcações, e já intitulado Imperador Misk I, foi importante voz de oposição aos governos de Estados-Empresa locais. Com a aquisição de todos os satélites de comunicação que atendem a área, iniciou longo processo de melhoria de imagem corporativa, aproveitando para empreender no setor de Educação Virtual.
Suas escolas e universidades ajudaram a formar toda uma geração de empreendedores com altos padrões de produtividade e competitividade. Quinze anos depois, foi eleito em primeiro turno Presidente da União de Cidades-Empresa, retornando para a nova capital de Rio de São Paulo, onde abriu licitação para construção do novo ponto turístico da Praia de Santa Teresa, a estátua de 150 metros de altura de si próprio, erguida ao longo de 5 anos de seu primeiro mandato pela empresa de seu filho, João Misk Jr., que venceu a licitação.
A mente e as memórias de João Misk foram transferidas para o Eternoverso, de onde pretende seguir atuando como conselheiro espiritual da União e de suas empresas. Seu corpo será enviado para o Sol na próxima semana a partir de um foguete de passageiros da rota Terra-Marte, como parte da nova campanha publicitária de uma marca de sabão em pó.
João Misk Jr., que assume como Presidente-Imperador da União de Cidades-Estado, decretou luto oficial de 7 dias.
Indignado, Arthur interrompeu o aperto em um parafuso na parte externa da estação espacial para esperar uma retratação de Dito, que estava soldando cabos de uma nova antena de comunicação em um ponto uns cinco metros mais adiante no corpo do módulo Europa III.
— Não sendo — respondeu Dito. — Música precisa ser tocada, cantada. O que eles faziam era apenas apertar o play em uma gravação.
A Terra girava rápida sob a estação espacial, continentes iluminados deslizando como se estivessem se locomovendo sobre trilhos. Era uma noite sem nuvens sobre a Europa. E uma manhã nublada na América.
Em silêncio, Arthur e Dito seguiam com atividades extra-veiculares para instalar uma nova antena de comunicação em substituição à antiga, que tinha sido danificada por micrometeoritos. O incidente deixou a estação praticamente sem comunicação com o planeta abaixo deles, que completava uma volta a cada 90 minutos.
— Se tem ritmo, e emociona, é música. Se você pesquisar nos bancos de dados, vai estar lá — Arthur ficou alguns segundos em silêncio, como se estivesse tentando se lembrar ou localizar a informação — “Kraftwerk foi um influente grupo musical alemão de música eletrônica dos séculos XX e XXI. O grupo foi formado por Ralf Hütter e Florian Schneider em 1970, em Düsseldorf e liderado por ambos até a saída de Schneider, em 2008.” Cheque-mate, caro Dito. Kraftwerk fazia música.
Dito terminou de soldar o terceiro de cinco fios. Usando jatos de ar, impulsionou-se, livre no espaço, em direção à outra parte da fuselagem cilíndrica, rumo à base da antena, onde faria testes para se certificar que os cabos foram conectados corretamente.
— E aí? Não vai dizer nada, nem um “Você tinha razão, Arthur, jamais duvidarei de seu conhecimento sobre a arte da Terra novamente?” — Arthur deixou escapar um dos parafusos que deveria ter afixado contra uma placa extra de captação de luz solar, dedicada a fornecer energia à nova antena. Com os jatos, afastou-se alguns metros da estação, até capturar a pequena porca que sobrevoava velozmente a Andaluzia.
Dito finalmente respondeu, depois de concluir os testes no primeiro dos fios.
— Sim. Tenho algo a dizer. Vou dizer que você está me atrasando. E podemos voltar a conversar no dia em que o Kraftwerk conseguir improvisar novos arranjos ao vivo. Sua comparação de Kraftwerk a músicos como Tom Jobim, Paul McCartney ou Beethoven é uma ofensa à arte humana, caro Arthur.
Dito usou novamente os jatos para voltar à outra ponta dos cabos. Ao chegar lá, notou que não registrou no log da missão qual dos fios havia verificado na base da antena.
— Arthur, você tem aí o registro de qual fio eu testei?
— Não, por que teria? Sem a antena principal eu não tenho como ver seu log pelo Computador Central.
— Não falei que esse papo de Kraftwerk estava me atrasando? Vou ter que refazer o teste — Dito fez um ruído irritado que forçou Arthur a reduzir temporariamente a sensibilidade de seus receptores. Então religou seu jato de navegação e flutuou novamente até a base da antena, que nesse momento atravessava rápida e suavemente fazendas e florestas do Leste europeu.
— Arthur terminou de fixar o parafuso que tinha escapado para o espaço. Consultou seus bancos de memória e colocou Die Roboter, sua favorita, para tocar. Em solidariedade ao irritado companheiro de trabalho espacial, não compartilhou o som pelo comunicador.
Enquanto isso, dentro da estação, os três astronautas que tripulavam a estrutura discutiam, intrigados, por que raios os dois robôs estavam demorando tanto para concluir o trabalho do lado de fora do módulo.
Este conto faz parte da coletânea Caixa de Futuros, disponível na Amazon.
Ouça Trans-Europe Express, do Kraftwerk, no YouTube
Do topo de um prédio, duas pessoas vestindo capas de chuva amarelas observavam um mundo cinza a seu redor, do céu aos prédios convertidos em pesadas nuvens de vidro, aos carros impacientemente engarrafados, ao asfalto encharcado sob os veículos.
O mais baixo tremia de frio, e mantinha as mãos nos bolsos da capa. Seu celular vibrava no bolso da calça com contínuas notificações. Ele sabia que precisava aproveitar ao máximo aquele exótico e raro encontro, mas mesmo assim estava tenso, como se o corpo reagisse numa espécie de crise de abstinência por não obedecer ao chamado imperioso do aparelho eletrônico que exigia atenção.
O mais alto apenas observava a chuva, que caía sobre as capas fazendo plec-plec. Não se movia, nada falava. Quando respirava, uma tênue nuvem de vapor se misturava às nuvens baixas que os cercavam.
O mais baixo rompeu o silêncio.
— Então… você disse que eu iria entender o impacto de minhas ações aqui, mas tudo que vejo é chuva. Minha empresa faz muitas coisas, mas chover ainda não é uma delas.
— Você tem pressa — respondeu a figura alta. Com as costas das mãos de dedos longos e pálidos, ele enxugou a testa. Depois, ficou alguns segundos observando as gotas escorrendo pelos dedos e pela mão. Estudava atento como elas demoravam alguns segundos a se misturar com os pingos de chuva — Você sabe de onde vem a chuva?
O mais baixo começou a pensar seriamente que aquilo tudo poderia ser uma pegadinha. Desde que acordou estava acompanhando aquela figura alta, que diz ser seu Guardião, Anjo da Guarda, Tutor ou algo assim. Já tinha viajado meio mundo, revisto cenas de sua infância e até mesmo ouvido o que seus funcionários falavam dele, como se invisível fosse. Ou essas experiências eram reais ou ele precisava patentear urgentemente a droga ou tecnologia que esse maluco estava usando. De qualquer forma, achou melhor ele dar corda e seguir com aquilo.
— Da evaporação, o vapor se condensa nas nuvens…. ah, você deve querer falar de Amazônia, rios voadores… olha, tá frio, eu tô todo molhado, e se a ideia é me dar alguma visão educativa, isso não tá funcionado — Ele tirou as mãos dos bolsos da capa de chuva e gesticulava. O telefone vibrava em seu jeans.
O mais alto se virou e o encarou com o rosto fino e pálido. A expressão tanto podia ser desprezo como pena.
O mais baixo sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Provavelmente era o frio. Então notou que o celular já não vibrava mais. E que seu smartwatch, que teoricamente era à prova d’água, já não passava de um quadrado preto em seu pulso.
Uma espécie de paz o invadiu. Ia comentar o fato, mas foi o Guardião que falou primeiro.
— Corações partidos. Corações partidos fazem chover. Não sobre a pessoa, como nas histórias em quadrinhos em que uma personagem tem uma nuvem preta sobre a cabeça — olhou para o céu e para as nuvens escuras cobrindo toda São Paulo — Sempre que alguém transborda de tristeza mas não chora, as lágrimas não vertidas viram chuva em algum lugar.
O executivo tentou falar alguma coisa, mas achou mais prudente apenas ouvir. O Guardião percebeu o gesto de resignação e fez um aceno com a cabeça sob o capuz amarelo-ovo que pareceu, ao mais baixo, um sinal de aprovação.
— Quanto mais pessoas sofrendo, e quanto mais elas guardam o sofrimento para si, mais lágrimas caem do céu. Todo mundo tem seus dias ruins. E todos tem dias solares, alegres. Eles se equilibram. Se não fossem os dias ruins, que valor teriam os bons? — o Guardião começou a caminhar lentamente pela borda do terraço, contornando o heliporto. O executivo o acompanhou, feliz por pelo menos poder se mexer um pouco para afastar o frio.
— Mas se as pessoas ficam mais e mais tristes e não têm com quem chorar, esse equilíbrio se afeta. E há o outro lado também. Se as pessoas simplesmente param de sentir, pessoas com rostos doces e adoráveis sem nada dentro.. nesses casos não há nem chuva, nem sol. O deserto de suas almas se espalha como mares de areia em seu planeta.
— “Meu” planeta? — o executivo não conseguiu segurar a pergunta, enquanto parte de seu cérebro tentava processar esse mar de informações tão distante de sua realidade quanto a piscina em forma de lua de um condomínio vizinho ao prédio de sua empresa de tecnologia, onde estavam. Qual teria sido a última vez em que ele tinha ido a uma piscina com a família? Não lembrava.
— Acho que você já tem informações demais para processar, não tem? Vamos voltar ao assunto principal e motivo de ter me revelado a você de forma tão explícita e didática — O Guardião usou um tom repleto de autoridade, e não restou ao executivo outra opção a não ser voltar ao tema da chuva e dos sentimentos.
— Tá, desculpe. Você quer me dizer que o clima, na verdade, é causado pelos sentimentos das pessoas. E se o sentimento das pessoas varia fora do normal, o clima fica fora do normal.
— Muito bem. Parece que você finalmente está entendendo — abriu os braços com as palmas das mãos abertas — Sinta a chuva. Apenas sinta. Olhe a seu redor. Veja o mar de lágrimas. É um mar de desilusões, mas também de redenção. Pessoas colocando a dor para fora, empilhando sofrimento em sacos pretos e levando para a calçada, para poderem varrer suas almas e reorganizar suas vidas.
Ele imitou o Guardião. Percebeu as gotas. Fechou os olhos. Não como um clima ruim que atrapalhava seu dia e o fazia sentir frio, mas como histórias. Cada gota como a história de alguém que se conectava a ele de forma tangível.
Não teve muito tempo para aproveitar a nova sensação. Uma claridade forte invadiu suas pálpebras fechadas, e pôde perceber cada gota evaporando rapidamente de seus cabelos e da pele dos braços. Abriu os olhos e estavam, ele o Guardião, no alto de uma duna em um dia ensolarado no deserto. Percorreu o horizonte a seu redor. Dunas. Areia por toda parte e nada mais que areia para qualquer lado que se virasse. Os pés afundavam sob o solo fofo.
— Esse é o oposto da chuva. O oposto da tristeza não é a alegria, mas o vazio, a apatia. Quanto mais pessoas escolhem não sentir, mais árido fica este deserto. E mais áreas outrora verdes, cheias de vida e sentimentos, se transformam em apenas areia.
— Tá, mas e aquele papo de aquecimento global? E tem também catástrofes, tipo furacão, terremoto… eles também deixam estragos… — aquela conversa fazia cada menos sentido para o executivo. Ou era uma parte de si que já sabia para onde o papo seguiria e se antecipava, com medo, ao veredito. Ele se sentia como o velho Scrooge ao lado do Fantasma do Natal Passado, e não se sentia bem em viver aquele papel.
— As coisas estão interligadas. E, sim, não adianta você amar as pessoas e queimar florestas e petróleo. Continuem com esses cuidados — explicou o Guardião, esboçando o que parecia um leve sorriso. — Quanto às catástrofes… bem, lágrimas alimentam as chuvas, a apatia torna o mundo um deserto. Mas quando muitas pessoas se quebram, o mundo se quebra junto. Você sabe, quando alguém perde o controle, não aguenta mais… quando a pressão é tanta que ela explode… para o humano, é uma explosão em sentido figurado, ainda que muitas vezes seja fatal, mas para o planeta, são explosões violentas. Vulcões, terremotos, furacões.
O executivo se abaixou. Pegou um punhado de areia, quente e amarelada. Ela escorria por entre seus dados, fina como a areia de uma ampulheta. A sensação era absolutamente real. Tanto quanto o sol queimando sua nuca. Percebeu então que já não usavam as capas de chuva amarelas, mas roupas grossas que os faziam parecer dois beduínos no meio do Saara. Não tinha como aquilo ser um sonho, alucinação ou realidade virtual.
Ele sentiu que era hora de chegar ao ponto final desta viagem.
— Ok. O que eu faço? O que você espera de mim?
— Eu não espero nada — respondeu o Guardião, olhando para o sol sem que sua luz parecesse incomodar — Eu lhe guardo, não o comando. E meus, digamos, colegas guardam outras pessoas e me pediram para conversar com você. Não lhe peço nada, apenas que reflita sobre seu papel nisso tudo.
— Meu papel? Peraí, não sou presidente de um país, eu não tenho fábricas poluindo. Eu só trabalho com tecnologia, crio aplicativos.
— Como é que vocês chamam aquilo que vocês usam para… orquestrar a forma como as pessoas usam seus… aplicativos?
— Algoritmo?
— Isso. Algoritmo. Como ele funciona?
— Ele ajuda as pessoas a encontrarem conteúdos. Se ela vê tal coisa, o sistema mostra mais coisas parecidas, e por aí vai.
— E com isso elas ficam bastante tempo vendo o mundo por seus aparelhos, não é? E se o… algoritmo entende que elas estão com uma determinada emoção ou ideia, mostra mais coisas com a mesma emoção e ideia.
— É, isso mesmo — o executivo tremia. Não entendia muito de emoções represadas e lágrimas, mas sabia muito bem prever para onde um raciocínio pretendia levar o interlocutor.
— Então…
— Então eu afeto o sentimento das pessoas para poder lucrar com publicidade. E eu faço com que elas, no fim, ou explodam ou simplesmente virem… desertos, pessoas ocas.
— Muito bem. Você finalmente entendeu.
— Mas que magia é essa? Como é que eu tenho o poder de fazer chover apenas mostrando coisas tristes paras as pessoas?
— Dessa vez você errou completamente. Primeiro, não é magia. Não gosto de entender as coisas como mágicas. No mundo da magia tudo é possível, então nada tem valor de fato. Magia é apenas uma ciência ainda não compreendida. Segundo, você não tem poder algum. A emoção é das pessoas, deixar de sentir é uma decisão pessoal também, inconsciente, sim, mas pessoal. Você é, digamos, o gatilho. Um gatilho poderoso.
O executivo agradeceu em pensamento quando o Guardião começou a caminhar pela duna, suas pegadas sendo rapidamente apagadas por grãos de areia que ocupavam os buracos deixados. O seguiu, feliz por pelo menos poder mudar o ângulo em que o sol queimava sua testa e pescoço. Subiu a gola do manto de pano pesado e percebeu que seu manto também tinha um capuz nas costas. O colocou. O Guardião prosseguiu.
— Vocês são feitos disso aqui — apontou para a areia e para o horizonte, em um gesto amplo. O executivo então percebeu como os braços do Guardião eram longos. Exageradamente longos. — Cada átomo de seus corpos vem do seu planeta. E, na verdade, cada parte de você existe há bilhões de anos. E antes de fazer parte de seu planeta, já fizeram parte de estrelas, que já foram outras estrelas e por aí vai. Quando vocês morrem, voltam a fazer parte desse todo.
É natural que boa parte de seus átomos estejam ligados a outros…vocês têm um nome para isso… ah, sim, entrelaçados. Você está inevitável e inexoravelmente entrelaçado com o mundo. O que acontece com você, acontece com esse par emaranhado.
— Tipo uma alma gêmea?
— É. “Tipo” uma alma gêmea. Mas nesse caso, seu par não é necessariamente um humano. Pode ser outro ser vivo. Uma pedra. Água. Areia — Chutou um punhado de areia e ela subiu e desceu lentamente, chovendo como gotas áridas. — É por isso que quando seus corações partidos choram, chove. Quando eles se endurecem, seca. Quando eles explodem… o mundo explode.
— E você quer que eu pare de afetar esse equilíbrio, certo?
— Eu não quero nada, já disse. Você é que precisa querer, a vida é sua, o mundo é seu.
— Tá. Você pode até não poder me pedir ou ordenar algo por alguma regra aí de vocês, mas eu entendo de negócios, entendo de negociações e entendo de desejos. Ninguém marca uma reunião de um dia inteiro indo pro alto de prédios e desertos sem querer nada. Então, me deixa refazer a pergunta: que escolha e ação minha, totalmente independente e pessoal, deixaria você feliz, ou satisfeito, ou com sentimento de missão cumprida? Vamos, fala. Vamos acabar com isso. Ainda que você não queira nada, que conclusão dessa história o deixaria feliz?
O Guardião pigarreou. Respirou fundo e jogou para trás o capuz de seu traje de pessoa do deserto. O executivo teve a impressão de que ele estava ainda mais alto. E seu rosto… embora tivesse dois olhos, nariz e boca, embora tivesse orelhas e um cabelo cinza-prateado curto, o rosto… não parecia humano.
— Existe um minério. Normalmente ele se apresenta em pequenos grãos. Tão pequenos e insignificantes que vocês nunca se deram ao trabalho de dar um nome para ele — Dessa vez, foi o Guardião que se abaixou e pegou um punhado de areia com as mãos. Os grãos escorriam lentamente por seus dedos desproporcionalmente longos. — Esse grão não tem qualquer valor ou função para vocês, mas ele é vital para meu povo. É a base de nossa energia, de nossa alimentação, daquilo que são feitas nossas construções… enfim, tudo.
— Meu povo não foi sábio. Também fazemos burradas. Esse não é um monopólio humano — caminhava pela areia, em passos curtos. Parecia envergonhado de chegar finalmente ao ponto-chave de sua explanação. — Enfim… este minério está acabando em minha casa.
Limpou as mãos no manto para retirar os grãos de areia que ficaram grudados. E prosseguiu:
— Então fomos mandados, eu e meus colegas, para cá. Para servirmos de guardiões da grande reserva deste minério que existe aqui. E para cuidar de vocês. Garantir que vocês mantenham o equilíbrio, produzindo suas chuvas, ventos, areias e… nosso minério.
— Você já deve ter entendido que o que vocês sentem transforma o mundo. Então, quanto mais de alguns sentimentos, mais deste minério. E você parece ter descoberto o gatilho perfeito para que os humanos produzam mais e mais dele. O suficiente para salvar todo meu povo. Por ordens superiores, eu não posso obrigá-lo a me ajudar, nem pedir. Mas posso lhe mostrar que os resultados podem ser muito satisfatórios.
— E que sentimento é esse que você precisa… digo, que você ficaria feliz se meu aplicativo fizesse crescer nas pessoas?
— Ódio.
— Ódio? – O executivo parou. O Guardião seguiu caminhando alguns passos. Então também se deteve e se virou. O executivo insistiu na pergunta. — Ódio? O que eu ganho instigando o ódio? Por que faria isso?
— O que você ganha instigando ódio? — perguntou o Guardião, sorrindo. — Há mais que preciso lhe mostrar.
E, num instante, eles foram transportados do deserto para o berço de outra máquina de instigar ódio e construir fortunas: a Alemanha dos anos 1930.
Algo se movimenta na mata, uns 50 metros à frente da torre de vigia. O soldado pega o binóculo, dá pausa no antigo MP3 player que toca Iron Maiden e tenta identificar o que é, prendendo a respiração. Na moldura circular de cada lente, apenas galhos levemente prateados pela lua cheia que torna a noite menos escura e assustadora. Movimenta o visor para a direita, nada. Faz o mesmo movimento para outro lado. Um vulto desaparece de súbito deixando um galho baixo agitado. Engole em seco.
Com um arrepio na nuca, retira o binóculo da frente do rosto e, instintivamente, olha a seu redor na solidão da torre de vigia. Ninguém, claro. Ninguém aparecerá até a troca de turno às 6h da manhã. Volta ao binóculo e à mata. Finalmente, identifica quem estava se movendo. Ou o quê. Mais um cervo. Ou talvez o mesmo, que insiste em passear à noite pela mata naquela região de fronteira em plena guerra.
Não há campos de batalha por perto, no entanto. E os dias e noites se sucedem sem nada que torne a torre de vigia diferente de um acampamento de escoteiros. Ou melhor, há uma diferença: o medo.
Dá play novamente na música. Adrian Smith explora dedos ágeis para transformar cordas esticadas em uma metralhadora de notas musicais agudas, rápidas, precisas. O soldado coloca o binóculo de volta na bancada. 50 metros abaixo dele, outros jovens dormem, esperando o dia de morrer por seu país invadido.
“Será que estão mesmo dormindo? Será que conseguem?”, pensa o soldado enquanto varre lentamente todo o perímetro com o olhar. Ao Norte, uma clareira de algumas dezenas de metros entre a casa e a base da torre e as primeiras árvores de uma mata densa. “Será que conseguem fechar os olhos e não imaginar que tem alguém ali, perto, pronto para atacar?”.
À Leste, a mesma floresta continua, menos densa, descendo levemente a colina de onde a torre tem uma vista panorâmica de uma vasta região. “Eu não conseguiria. Por esse lado, foi sorte ficar com o turno da noite. Porque tem alguém ali. Eu sinto. Só não consegui ver ainda.”
O Sul tem uma vista completamente diferente, com um riacho de água prateada serpenteando colina abaixo. É um riacho de água lenta e prateada ao luar. Quando os pássaros e outras criaturas da noite sossegam, dá para ouvir o ruído da água deslizando sobre as pedras. Do outro lado do riacho, uma pradaria que talvez tenha sido pasto de gado, ovelhas ou algo assim. “Os caras riem quando eu falo do medo, me chamam de mulherzinha. Mas, porra, o que eu posso fazer? Eu sinto. Algo não está certo.”
O lado Oeste da torre de vigia é dominado por um campo parecido ao pasto do Sul, que segue por umas centenas de metros até um paredão rochoso, que hoje está na penumbra da Lua que logo sumirá atrás da montanha. “Só mato. Cervos. Corujas. E mais mato. Não tem nada aqui. Ninguém aqui. Só esse bando de idiotas protegendo o nada, essa noite maldita, esse medo maldito e esse cervo maldito que toda noite me assusta.”
Senta em um banco. Não há muito conforto, nem muito espaço, no alto da torre. Acende uma lanterna e marca em um caderno o horário da ronda. Tem alguns minutos até a próxima. Pausa a música. Estica as pernas e olha a lua se afundando lentamente atrás da rocha à sua esquerda. Atrás dele, o rio se transforma de um fio prateado em uma língua negra e sem graça. A noite fica mais escura.
Tem a impressão de que os animais da floresta sentem a ausência da lua e se recolhem. Tudo fica mais silencioso. Até o vento parece ter resolvido deixar de soprar. O único som é a água correndo no riacho atrás dele. Ele torce para que o maldito cervo que todo dia o assusta ao caminhar pela mata também esteja quieto, dormindo.
Envolto na escuridão, e embalado pelo som do riacho, fecha os olhos. Adormece. E sonha.
No sonho, ele não está na torre, mas lá embaixo, na mata. Pela primeira vez em muitos dias não sente medo. Nada. Porque agora ele é o caçador. Veste roupas de couro e carrega uma grande faca. Ele se esgueira pela mata, passos leves. Com habilidade, se contorce para passar por galhos baixos sem que uma única folha se agite.
No silêncio e na escuridão, ele avança, sereno e concentrado, até encontrar sua presa. O cervo, que pasta lenta e sonolentamente entre árvores antigas. Contorna a pequena clareira onde está o cervo. Acerta a empunhadura da faca, flexiona os joelhos e salta sobre a presa, pleno de coragem.
Acorda num susto, a tempo de perceber a respiração de alguém atrás dele e, mesmo na escuridão da noite agora sem lua, com o canto dos olhos nota o brilho de uma longa faca rente a seu pescoço.
Ouça Fear of The Dark, do Iron Maiden, que inspirou este conto.
Os dois caminhavam pela praia vazia de um dia frio e nublado. O mar estava calmo, apesar do tempo ruim. A espuma das ondas lentamente apagava as pegadas que deixavam pelo caminho.
– Pô, Hemingway? Tu vem aqui pra pensar em Hemingway?
Ele pega um punhado de areia com as mãos e joga na espuma de uma onda que acabara de recuar. – É. No Velho e o Mar. Livraço. Curtinho, tipo aqueles que a gente lia na escola, só que bom.
– História boa não precisa ser longa pra valer a pena, né?
– É…
Ficaram em silêncio, caminhando descalços e segurando os tênis. As ondas molhavam os pés com água gelada. Um mar de ideias revoltas batia contra os ossos do crânio de cada um. As palavras se embaralhavam no caminho até os lábios e morriam em uma espuma rala. Seguiram mais alguns passos. De tempos em tempos, o vento soprava forte e atravessava os agasalhos, limpando a espuma e deixando as palavras fluírem de novo.
– Você pensa em voltar aqui de novo… depois?
– Ah, sim, acho que sim. Minha família não deve vender a casa, vão acabar insistindo pra vir com eles nos feriados.
– Tá certo, faz bem. – Gaivotas passaram por eles. Algumas davam rasantes sobre o mar e arremetiam depois. – Qual é a história?
– Que história?
– Do livro. O Velho e o Mar.
– Ah. É muito boa. Um velho pescador, experiente, em sua luta final contra um peixe gigante. Um tubarão… ou um arenque, um peixe-espada. Sei lá. Era um peixe grande. Acho que os dois aprendem a se respeitar e morrem no final.
– Tubarão, arenque, acha que o velho morre… você lembra algo da história, afinal?
Param ao encontrarem uma concha na areia. Era uma bela concha, construída pela natureza ao longo de muito tempo. Meses, anos, séculos. A idade do objeto era um mistério, mas não reduzia sua beleza. Observaram a concha em silêncio, e depois a arremessaram com força ao mar.
– Pra ser sincero, não muito. Mas é engraçado. Tem história que você esquece os detalhes. Eles somem como se fossem escritos aqui, nessa areia. Mas a história fica. A história, sei lá, é maior que os personagens, que o que aconteceu de fato. Eu lembro que é um baita livro, que me emocionou, que valeu a pena. Isso me basta.
– Te entendo. As pessoas passam, as histórias ficam. Servem pra lembrar do que é importante e esquecer o que é só firula.
– Os lugares também. Essa praia. É só um lugar. Mas também é a história que cada um viveu aqui.
– E acabou que, depois de todos esses anos, não achei um puto de um cavalo marinho.
– Se um dia eu achar, eu te aviso.
– Se eu achar um por lá eu te aviso também.
O barulho das gaivotas em voo fez com que os dois olhassem para o céu cinzento. Assim ficaram por um tempo, observando o padrão de voo das aves.
– Será que tem? Será que dá pra montar em cavalo marinho? Um cavalo marinho voador? Que cospe fogo?
– Isso tá mais pra dragão – riu. – Mas talvez, quem sabe? Eu pergunto assim que chegar e te conto.
Subiram em silêncio em umas pedras no canto da praia, ajudando-se para escalar a rocha escorregadia e úmida.
– Tu vai puxar meu pé, aparecer no espelho do banheiro, ficar me chamando no final de um corredor escuro, essas coisas?
– Com certeza… tipo Freddy Krueger. Vou te azucrinar em forma de arenque.
– Falando nisso, o que é aquilo? – disse, apontado para algo em alto mar.
– Sei lá… será que é um tubarão?
– Cavalo marinho não é, lamento.
– Será um peixe-espada?
– Faz muita diferença pra história?
– Faz não.
– Faz não.
Ficaram olhando o suposto tubarão no mar. Então riram juntos, como o fizeram em muitos verões e invernos. E como jamais fariam novamente.
Ouça Vento no Litoral, da Legião Urbana, que inspirou este conto.
“Silêncio, o jovem está descobrindo…” A frase é popular no Twitter, ferramenta usada para pensar em voz alta e ser criticado por estar pensando errado. É usada sobretudo entre um público mais sênior, indignado com jovens que descobrem, como algo inovador e revolucionário, coisas, processos ou hábitos que existem há décadas, mas com nomes e roupagens menos “mudernas”. É um comentário quase sempre pedante e inapropriado, especialmente por ignorar a importância de se maravilhar, de se surpreender mesmo com as pequenas coisas.
A surpresa pelo novo é importante para nossa vida. Faz bem para o corpo, para alma e para o mundo. No entanto, é preciso fazer uma justiça ao comentário arrogante sobre os jovens: em muitos casos, a descoberta é mesmo de algo que já existia. Se você tirar aspectos muito específicos, “coliving” não é tão diferente assim da boa e velha “república”. A clássica T-shirt era unissex muito antes das roupas de gênero neutro. E por aí vai. Antes de apedrejar os jovens e sufocar um saudável senso de maravilhamento com o mundo, vale refletir sobre o motivo de tantos redescobrimentos.
Como em quase tudo, a resposta não é monolítica, óbvia e simples, como muitos debates de Twitter dão a entender. Vários fatores contribuem. Listarei apenas alguns, como o que nos vem sendo alertado desde 2011 por Nicholas Carr, com seu best-seller The Shallows (Geração Superficial no Brasil). A estrutura da internet e, sobretudo, das redes sociais, nos afoga numa piscina rasa de informação. Precisamos estar prontos a absorver, curtir, reagir e debater tudo. Política, Big Brother, os cancelamentos do dia, a rotina dos atletas e celebridades, pessoas que são felizes/ricas/amadas/mimadas demais, os políticos de estimação etc etc etc. Não há tempo para nos aprofundarmos, pois o deslizar do dedo sobre tela traz uma novidade, uma invenção, uma revolução, uma treta e um cancelamento diferente.
É compreensível que falte tempo para processar o mundo. Atire o primeiro meme aquele que nunca se viu compartilhando como inédito um vídeo, notícia ou fato do ano passado que ressurgiu na linha do tempo. Quem não lamentou a morte do artista que já tinha entrado obituário anos atrás?
Como falta tempo para efetivamente conhecer e entender o mundo, entramos na era do “lavou tá novo” da informação. Se tem um novo nome, é novo. Isso explica a facilidade que muitos políticos têm encontrado de ignorar todo o passado e se apresentar, depois de décadas de abuso da máquina pública, como o novo, os anti-sistema, os salvadores.
Outro motivo também é culpa da Internet. É muito mais fácil achar rastros digitais e históricos daquilo que surgiu na era digital. Nossa sociedade está digitalizada, mas nossa memória não. Há um vasto oceano de fatos, notícias, conteúdo audiovisual e literário, negócios e inovações exilados e distantes de nossos olhos por serem analógicos ou, se digitais, ainda presos em arquivos de veículos restritos a assinantes ou digitalizados em PDFs não indexados. Dessa forma, ao adotarmos a percepção de que “se o Google não acha, não existe”, perdemos nossa memória. As implicações são gravíssimas, visíveis nos recentes processos de revisionismo histórico, com negações a fatos como o Holocausto, a sanguinária ditadura militar no Brasil e demais países da América Latina e atrocidades soviéticas.
A arquitetura fechada das redes sociais e a efemeridade dos conteúdos curtos em vídeo, como stories, só agravam esse processo. Mesmo o conteúdo contemporâneo, o vídeo de ontem, é levado pela correnteza digital, uma constante cabeça d’água que não só entorna litros de informação a cada segundo sobre nossas cabeças, mas que também enxágua nossa mente levando essas mesmas informações para o ralo.
O jovem não está só descobrindo o velho. Está, ao mesmo tempo, esquecendo-o. E não é só o jovem, somos todos nós que cada vez mais terceirizamos nossas habilidades cognitivas para uma incrível plataforma digital que “tudo” armazena, encontra e comunica, mas que, justamente, não reflete. Não pensa, não contextualiza além do que determinam seus algoritmos.
Armação Ilimitada
Que nos maravilhemos, então, ao “redescobrir” o passado. Isso vale para tudo. Das repúblicas estudantis aos documentos legítimos de fatos históricos. Da moda unissex às importantes questões sobre gênero e representatividade. Do trisal de Armação Ilimitada, nos anos 80, ao poliamor de hoje. Da inflação aos preconceitos e hábitos injustos que precisam ser lembrados exatamente para que não voltem com um novo nome.
Os irmãos brincavam com uma bola enquanto ela fechava as malas. Quatro volumes, um para cada membro da família. É tudo que levariam de seu planeta cada vez mais desértico. Ergueu os olhos para além da redoma de vidro, instalada há muito tempo, quando se percebeu que a deterioração do clima era irreversível. Uma tempestade de areia vermelha se erguia no horizonte.
Procurou pelo marido, que ainda não tinha retornado do espaçoporto de onde partiriam para a nova casa. A bola veio quicando, indiferente a sua inquietação e aninhou-se entre seus pés. Os meninos agora estavam agora sobre umas caixas, posicionando as mãos em forma da aba de um boné sobre os olhos, espreitando o céu azulado do anoitecer que começava a pipocar de estrelas.
— É qual delas, mamãe?
— É aquela na direção do Sol poente, a mais azulada.
— É tão pequena. Vai caber todo mundo?
Ela riu, algo que não fazia há muito tempo. Eles eram os últimos habitantes a deixar o planeta moribundo, cada vez mais desértico e desolado. Preocupava o casal, mais do que a solidão de ter ficado para trás por serem cientistas-chefes da missão de evacuação planetária, a angústia de não terem recebido qualquer comunicação de retorno das muitas naves que partiram antes deles para o planeta vizinho.
— Sim, vai caber. Na verdade, é um planeta maior do que esse, mas inabitado. Vocês vão adorar. É muito parecido com nosso próprio mundo, como ele era tempos atrás, cheio de verde e de água.
As crianças seguiram olhando para o céu, incrédulas. Ela também se corroía de insegurança e medo. Nenhum sinal das expedições anteriores.
Haviam decidido mudar o lugar de pouso, um outro continente no novo planeta. Provavelmente nunca mais encontrariam outros de seu povo. Mas se o local das aterrisagens anteriores oferecia algum perigo, o que explicaria o silêncio por tanto tempo, a família teria mais chances de encontrar um lugar amistoso para reiniciar a longa caminhada da espécie.
Empilhou as malas fechadas sobre um carrinho. O céu já estava totalmente escuro e estrelado. Pouco se via das dunas e rochas avermelhadas fora da redoma. Um silêncio mortal imperava, quebrado somente pela voz do marido, que retornava do espaçoporto.
— Eva, a nave está pronta. Podemos partir.
Este conto faz parte da coletânea Caixa de Futuros, disponível na Amazon.