Cada um com sua nuvem

Em 1995, Nicholas Negroponte, cientista da computação e fundador do Media Lab do MIT, publicou um livro que norteou as décadas seguintes da economia pontocom. “A Vida Digital” antecipou o SaaS (e o Hardware como Serviço, a nuvem) e, inclusive, os agentes digitais e as interfaces por voz. Num resumo do resumo, ele previu que produtos virariam serviços e que átomos virariam bits. A indústria musical foi a primeira a ir de arrasta como consequência de sua previsão. Com o peso cada vez maior da IA (e sua concentração em meia dúzia de CNPJs) na vida das pessoas e empresas, o pêndulo começa a voltar para o outro lado.
Tudo é cíclico e pendular. Sempre que você tem a impressão de “já ter visto esse filme antes”, é porque já viu mesmo. Negroponte estava absolutamente certo e quase tudo virou serviço. Já não temos a posse física de nossas músicas, filmes, jogos, softwares, HDs de backup, álbuns de foto e, com a IA, de nossos próprios cérebros. Até coisas que comprávamos no mercado viraram serviços, como os clubes de assinaturas de cafés, produtos de limpeza e beleza, etc.
Isso gera um custo mensal significativo. E também um risco enorme, saias-justas a cada mudança unilateral nos termos de serviço e um inevitável e crescente descontentamento por conta de outra propriedade inerente ao capitalismo digital, descrita em 2022 pelo Cory Doctorow: a “merdificação” das plataformas. Em resumo, quando o dono do parquinho percebe que a gente tá enraizado nele até o pescoço, ele cerca o parquinho, deixa os brinquedos quebrarem e passa a sugar a gente até não poder mais.
Uma hora, a paciência acaba. Se o encarecimento de chips e memórias (provocado pelos mesmos CNPJs donos dos parquinhos) atrapalha, não será uma barreira para sempre. É inevitável que alguns produtos voltem a ser produtos. Que alguns serviços voltem a ser compras. Não é que vamos todos voltar integralmente aos vinis e fotos impressas, mas uma hora a gente vai querer ouvir aquele álbum tal do Djavan e vai descobrir que ele não está mais na plataforma. Vai tentar resgatar a foto do vovô e descobrir que o backup na nuvem foi pro céu junto com ele. Vamos querer acessar aquela anotação antiga e ela sumiu porque a ferramenta gringa foi proibida no país. E aí vamos retomar um modelo híbrido. Alguns serviços e coisas vão seguir na nuvem, como assinaturas. Outras, a gente vai quer ter ali do lado, nosso, sem depender de um termo de uso.
Nuvens locais, agentes de IA rodando em caixinhas e dispositivos, backups físicos e acessíveis. Redes sociais descentralizadas. Softwares que não dependam de assinaturas. Dados protegidos. Quer redundância? Backup de tudo numa nuvem que fique no seu próprio país (temos excelentes opções, com novos cabos submarinos reforçando as interconexões globais). Dados e sistemas rodando em ambientes (sua casa, empresa, datacenters e redes) soberanos, locais, com menos dependência dos humores internacionais. O desmoronamento da economia globalizada deixará cicatrizes na internet como uma plataforma sem fronteiras. Se (quando) começarem a erguer (novos) postos de fronteira virtuais, é bom que sua vida digital esteja do mesmo lado do muro que seu corpo físico.
Por US$ 1.799 já dá para brincar disso. Quer começar mais devagar? Com uma Rapsberry PI rodando Linux e um agente local de IA é possível começar a sentir o gostinho.
Sempre teve quem defendesse essa visão. Uma boa galera ergue nesse momento suas plaquinhas de “eu te disse”. Agora, ela fará cada vez mais sentido para pobres mortais e empresas, sobretudo num mundo fragmentado e em guerra comercial. Quanto de sua vida e de seu trabalho dependem de dinheiro para pagar assinaturas mensais e de recursos rodando no computador de terceiros, em algum lugar do planeta?
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