Nasci e cresci no subúrbio, andando por calçadas quebradas emolduradas por casas, vilas, pequenos comércios. Ruas que passaram todos os meus primeiros anos imunes ao tempo que transforma, apenas sendo lentamente consumidas pelo tempo que devora. Então saí, e vim parar num canto completamente diferente da cidade.
Já são 15 anos em uma região que abriga bairros de urbanização recente, como Barra e Recreio. Neles, somos quase todos imigrantes. A maior parte de nós viveu a vida compartilhada do que entendemos como uma cidade, com ruas para se andar, esquinas, praças… e lentamente estamos esquecendo o que é isso.
O Recreio é longe pra caramba. É mais longe que Jacarepaguá, cuja lonjura rendeu até música. Com isso, cada vez vamos menos “à cidade”. É comum dizer “ir à cidade” para se referir ao centro, território pulsante do Rio, que minguou na pandemia mas aos poucos vem recobrando seu papel (diferente do que já foi, o que não é ruim).
Então, dia desses “fui à cidade”. Era fim de semana, mas as ruas estavam cheias por conta de eventos culturais e o burburinho pré-eleitoral. Estava lá, deitada em pontos de ônibus, a dor pungente das cicatrizes da desigualdade. Ignorar a miséria é mais difícil. É preciso, literalmente, desviar do “problema”, uma vida, uma pessoa à beira de invisibilidade. Aqui, na terra dos castelos, basta fechar o vidro dos carros.
Andar por ruas de verdade, sejam do Centro ou de bairros “tradicionais”, é revigorante, também. A variedade arquitetônica nas casas. O grafitti. As pessoas indo e vindo. Ou ficando. As marcas de uso, de vida, nas calçadas, paredes, fachadas. O frenesi das avenidas ou a tranquilidade das ruas residenciais. As vias vivem, respiram e ensinam.
Bairros como Barra e Recreio trocaram as ruas por castelos murados. A ideia tentadora é que você não precisa sair do condomínio seguro. Vende-se comodidade. O que se entrega é alienação e desigualdade. O conceito do condomínio como um oásis de segurança pressupõe a ideia de que, dos muros eletrificados para fora, o mundo é perigoso.
O outro é uma ameaça. Um invasor. Ou um servo, um camponês cuja existência se deve aos castelos. A rua não é lugar de convivência, mas de passagem, com avenidas cercadas por placas de publicidade. Por aqui, as ciclovias pintadas ou assinaladas sobre a calçada tornam o ir e vir desafiador tanto para ciclistas quanto para pedestres. A prioridade é, sempre, para os carros, cada vez maiores, pequenos castelos, ou tanques blindados, em si.
Nos novos castelos da cidade, meio ambiente é paisagismo, segurança pública é carro blindado, praça é a de alimentação do shopping.
A cidade de castelos desumaniza, isola, divide. O preço que ela cobra vai além de uma taxa de condomínio proibitiva, onde assume-se custos para o que deveriam ser preocupações coletivas e de Estado (segurança, limpeza urbana, esgoto…). O custo extra é a insensibilidade, é uma ignorância crescente sobre o sentido de coletividade, do comum, do compartilhado. Do espaço urbano vivo, que traz em cada parede, pichação, uma memória, um aprendizado.
Ao fugir da rua, desaprendemos a ouvir. Desaprendemos a perceber o outro. A vida nos castelos é fruto de uma cultura cada vez mais individualista, mas também é sua causa. É compreensível que o morador do condomínio se queixe do papel do Estado, de pagar impostos, de iniciativas de distribuição de renda. Ele paga tributo em dobro, e os muros cada vez mais altos não o deixam perceber que existe um lá fora. Que o lá fora precisa do cuidado coletivo. E mais: ele esquece que o lá fora também é sua cidade.
Os castelos se tornam sua microcidade. Sem passado, sem memória, sem sentido de público. Se tornam prisões, cercadas por um ambiente cada vez mais hostil, criado pelas próprias muralhas.
A nossa praça é a de alimentação do shopping. O nosso Centro é o umbigo. O nosso passado é um memorial de incorporação. O nosso futuro é solitário. A nossa saída é um SUV blindado de 7 lugares.
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