E se esse for o fim do meio?

Lugares instagramáveis, o Guia do Mochileiro das Galáxias, problemas matemáticos e a IA como oráculo: o problema dos finais sem meios e a morte da narrativa.
Não dou muita bola pra respostas. Acho chatas, sem graça. As respostas são becos sem saída. São paralelepípedos pesados e opacos. As perguntas, por outro lado, são sensuais (e sensoriais). São bifurcações, caminhos a se percorrer, páginas em branco a serem preenchidas. Perguntas são massinhas de modelar multicoloridas. Respostas são a foto do kit na caixa de Lego. Perguntas são as pecinhas se esparramando sobre a mesa. Respostas são o fim. Perguntas são recomeços, são o meio, o caminho a se percorrer.
Estamos acabando com os meios, numa neura por chegar o quanto antes às respostas. Em vez de explorar a vida, o universo e tudo mais, estamos aceitando felizes quando jogam um “42” em nossa cara. No lugar da jornada para tirar uma foto brega escorando a Torre de Pisa, a gente pede para a IA criar uma foto brega escorando a torre e dá no mesmo.
Não dá, mas estamos achando que dá.
Como diz o Byung-Chul Han, confundimos narrativa e informação. A resposta é uma informação, o caminho até ela é uma narrativa, um aprendizado, uma jornada, uma memória, uma construção de entendimento. Imagine a Odisseia se Ulisses tivesse um teleporte? A Saga do Anel se alguém tivesse a ideia de ir até Mordor voando numa das águias? Ok, o Anel seria destruído, mas o que isso significaria para o arco de Frodo e os demais? Gandalf ainda seria cinzento. Merry e Pippin não amadureceriam (um pouco, pelo menos).
Desde o comecinho deste ano, OpenAI e Anthropic entraram em (mais uma) corrida para ver quem derrubava mais barreiras no campo da matemática. Um episódio recente do podcast Radiolab traz a visão do matemático Steve Strogatz sobre essa luta para trazer o mais rápido possível respostas para desafios que deveriam nortear os caminhos pelas próximas décadas. O mais empolgante/assutador: elas conseguiram.
Entre os feitos matemáticos das IAs está a publicação de uma resolução do problema de existência e suavidade de Navier–Stokes, um sistema de equações tão desafiadora que tinha um prêmio de 1 milhão de dólares para quem resolvesse o problema.
Alguns matemáticos espanhóis estavam bem encaminhados, mas infelizmente eles eram apenas humanos. A OpenAI lançou mão de um exército de 10 mil agentes trabalhando sem parar durante quatro dias. Isso equivale a mais de 100 anos de horas de trabalho 24/7 e custou 20 vezes o valor do prêmio. Mas entregou a resposta. Em quatro dias, caía um dos desafios estabelecidos para manter entretidos os matemáticos ao longo do século. Foi na força, não no jeito.
Qual a graça? Segundo Strogatz, o matemático ouvido no episódio, duas coisas preocupantes emergem desse feito histórico: uma é o fato de o raciocínio da(s) máquina(s) ser opaco. Ou seja, ao contrário de feitos matemáticos anteriores, em que a solução da IA foi criativa e elegante, esta é tão complexa e sofisticada (além de ser um combinado de 10 mil “pessoas” diferentes) que não dá para saber COMO a IA chegou ao resultado, o que a transforma numa perigosa “caixa-preta que só diz verdades”.
Outra é a falta de sensibilidade de se entender que o que buscamos realmente nesses objetivos é proporcionar a viagem. A turma por trás das plataformas entende muito de tecnologia e pouco de humanos. O alvo de chegar à Lua não é (só) para colocar os pés naquelas rochas, mas para podermos desenvolver todas as tecnologias e resolver os pepinos que surgem no processo de mandar os astronautas para lá. A gente gosta de resolver pepinos, gosta de criar ferramentas. É assim que evoluímos ao longo dos milhares de anos anteriores.
Pra que evoluir, se a máquina vai cuspir todas as respostas de que precisamos? Pra que desbravar caminhos se os destinos estão a um clique de distância? Pra que montar o Lego se um robô monta todas as peças num segundo?
O episódio também apresenta um contraponto, em que mecanismos de aprendizado de máquina permitem descobrir tumores a partir de exames que não seriam percebidos como anormais mesmo pelos médicos mais experientes. A gente não sabe o que exatamente esse algoritmo está vendo, só que ele acerta. E essa capacidade supra-humana salva vidas.
Em que medida queremos a jornada mais que o resultado (quem já viu qualquer road movie sabe que o destino é mero pretexto) e quando a solução é o que mais importa? Quando aceitaremos o oráculo supra-humano nos dizendo verdades que não entendemos de onde vêm?
Quando queremos descobrir passo a passo a resposta para a vida, o universo e tudo mais, e quando um simples e direto “42” já basta? Se o fim do meio também for o fim das narrativas, que história contaremos no futuro? Esse é um caminho sem volta? Dá pra achar um meio-termo? Tem jeito? Estamos testemunhando o ponto final das interrogações? Deixo vocês com algumas perguntas.
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