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E se esse for o fim do meio?

Written by

Roberto Cassano
Ilustração psicodélica com um grande "42" flutuando sobre um templo grego que abriga um computador antigo, ao lado da Torre de Pisa, cercados por equações matemáticas e circuitos coloridos.
A resposta da IA para “uma imagem em estilo psicodélico, mesclando o número 42, equações matemáticas complexas, a Torre de Pisa e um templo em formato de computador retrô.”

Lugares instagramáveis, o Guia do Mochileiro das Galáxias, problemas matemáticos e a IA como oráculo: o problema dos finais sem meios e a morte da narrativa. 

Não dou muita bola pra respostas. Acho chatas, sem graça. As respostas são becos sem saída. São paralelepípedos pesados e opacos. As perguntas, por outro lado, são sensuais (e sensoriais). São bifurcações, caminhos a se percorrer, páginas em branco a serem preenchidas. Perguntas são massinhas de modelar multicoloridas. Respostas são a foto do kit na caixa de Lego. Perguntas são as pecinhas se esparramando sobre a mesa. Respostas são o fim. Perguntas são recomeços, são o meio, o caminho a se percorrer. 

Estamos acabando com os meios, numa neura por chegar o quanto antes às respostas. Em vez de explorar a vida, o universo e tudo mais, estamos aceitando felizes quando jogam um “42” em nossa cara. No lugar da jornada para tirar uma foto brega escorando a Torre de Pisa, a gente pede para a IA criar uma foto brega escorando a torre e dá no mesmo. 

Não dá, mas estamos achando que dá. 

Como diz o Byung-Chul Han, confundimos narrativa e informação. A resposta é uma informação, o caminho até ela é uma narrativa, um aprendizado, uma jornada, uma memória, uma construção de entendimento. Imagine a Odisseia se Ulisses tivesse um teleporte? A Saga do Anel se alguém tivesse a ideia de ir até Mordor voando numa das águias? Ok, o Anel seria destruído, mas o que isso significaria para o arco de Frodo e os demais? Gandalf ainda seria cinzento. Merry e Pippin não amadureceriam (um pouco, pelo menos). 

Desde o comecinho deste ano, OpenAI e Anthropic entraram em (mais uma) corrida para ver quem derrubava mais barreiras no campo da matemática. Um episódio recente do podcast Radiolab traz a visão do matemático Steve Strogatz sobre essa luta para trazer o mais rápido possível respostas para desafios que deveriam nortear os caminhos pelas próximas décadas. O mais empolgante/assutador: elas conseguiram. 

Entre os feitos matemáticos das IAs está a publicação de uma resolução do problema de existência e suavidade de Navier–Stokes, um sistema de equações tão desafiadora que tinha um prêmio de 1 milhão de dólares para quem resolvesse o problema. 

Alguns matemáticos espanhóis estavam bem encaminhados, mas infelizmente eles eram apenas humanos. A OpenAI lançou mão de um exército de 10 mil agentes trabalhando sem parar durante quatro dias. Isso equivale a mais de 100 anos de horas de trabalho 24/7 e custou 20 vezes o valor do prêmio. Mas entregou a resposta. Em quatro dias, caía um dos desafios estabelecidos para manter entretidos os matemáticos ao longo do século. Foi na força, não no jeito.

Qual a graça? Segundo Strogatz, o matemático ouvido no episódio, duas coisas preocupantes emergem desse feito histórico: uma é o fato de o raciocínio da(s) máquina(s) ser opaco. Ou seja, ao contrário de feitos matemáticos anteriores, em que a solução da IA foi criativa e elegante, esta é tão complexa e sofisticada (além de ser um combinado de 10 mil “pessoas” diferentes) que não dá para saber COMO a IA chegou ao resultado, o que a transforma numa perigosa “caixa-preta que só diz verdades”.  

Outra é a falta de sensibilidade de se entender que o que buscamos realmente nesses objetivos é proporcionar a viagem. A turma por trás das plataformas entende muito de tecnologia e pouco de humanos. O alvo de chegar à Lua não é (só) para colocar os pés naquelas rochas, mas para podermos desenvolver todas as tecnologias e resolver os pepinos que surgem no processo de mandar os astronautas para lá. A gente gosta de resolver pepinos, gosta de criar ferramentas. É assim que evoluímos ao longo dos milhares de anos anteriores.  

Pra que evoluir, se a máquina vai cuspir todas as respostas de que precisamos? Pra que desbravar caminhos se os destinos estão a um clique de distância? Pra que montar o Lego se um robô monta todas as peças num segundo?  

O episódio também apresenta um contraponto, em que mecanismos de aprendizado de máquina permitem descobrir tumores a partir de exames que não seriam percebidos como anormais mesmo pelos médicos mais experientes. A gente não sabe o que exatamente esse algoritmo está vendo, só que ele acerta. E essa capacidade supra-humana salva vidas. 

Em que medida queremos a jornada mais que o resultado (quem já viu qualquer road movie sabe que o destino é mero pretexto) e quando a solução é o que mais importa? Quando aceitaremos o oráculo supra-humano nos dizendo verdades que não entendemos de onde vêm?

Quando queremos descobrir passo a passo a resposta para a vida, o universo e tudo mais, e quando um simples e direto “42” já basta? Se o fim do meio também for o fim das narrativas, que história contaremos no futuro? Esse é um caminho sem volta? Dá pra achar um meio-termo? Tem jeito? Estamos testemunhando o ponto final das interrogações? Deixo vocês com algumas perguntas.

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