Trinômio quadrado perfeito

Alexandria chegou esbaforida do canto número 2, de onde veio contornando o chafariz central. Fios do cabelo grudavam na testa suada e salpicada de terra escura. As mãos, ainda mais sujas, espalhavam o substrato pelo rosto a cada tentativa de soltar os cabelos que emolduravam um sorriso raro, iluminado por olhos radiantes.
— Está nascendo! — comunicou ao homem, entre batidas do martelo contra a talhadeira que esculpia um navio na marcenaria erguida no canto 3. Da peça de madeira já emergiam mastros com velas triangulares, proa, popa e detalhes do convés.
O homem deitou com cuidado as ferramentas sobre a bancada de trabalho, martelo e talhadeira instalados em paralelo ao lado do prumo, e limpou as mãos calejadas no avental. O doce aroma da madeira se mesclava ao suor do trabalho manual. Alternou o olhar terno entre a mulher e o navio inacabado.
— Tem certeza? Da última vez era o vaso que tinha rachado com o peso da terra.
Como resposta, recebeu apenas um puxão pelo avental, que quase jogou Euclides ao chão. Alexandria correu rente à parede 3-4, em vez de voltar pela hipotenusa até o canteiro. No centro do espaço, a fonte vertia água cristalina, indiferente ao que acontecia.
— Você não estava com pressa?
— E a gente vai receber nossa cria assim? — protestou a mulher, exibindo as palmas encardidas de terra.

Despiu-se no caminho para a casa de banhos, cuidadosamente instalada desde sempre no canto 4. Protestou quando viu que Euclides ainda vestia as botas, calça, blusa e até o avental enquanto ela já mergulhava na grande banheira alimentada pela água morna que escorria por uma canaleta diretamente do chafariz central.
Sem retrucar, Euclides retirou as roupas e entrou na banheira. Como costume, Alexandria se virou para que o companheiro desembaraçasse os longos fios de seu cabelo e a ajudasse a esfregar as costas com a esponja. É na pressa que se deve fazer as coisas com calma. Euclides mergulhava a esponja na água aquecida e, com ela, desenhava círculos nas costas de Alexandria, ampliando o movimento para os ombros e braços, como se esculpisse a companheira.
Terminada a assepsia, vestiram as togas destinadas às ocasiões especiais, como as datas primas e a colheita de dízimas. Ela dividiu o cabelo em duas longas tranças, que prendeu com fitas amarelas. Ele amarrou em torno de si um cinturão adornado por triângulos de madeira. Seguiram pela parede 2-4 até o canteiro. Atravessaram a horta bem-cuidada por Alexandria, com os produtos notáveis de longos anos de trabalho. Pisavam somente no pequeno caminho de tábuas de mogno cortadas por Euclides, para que os pés descalços, como manda o figurino das datas festivas, não se sujassem. Euclides seguia a companheira em silêncio obediente, calando a inquietude que ganhava forma em seu coração.

Chegaram ao vértice onde o piso e as paredes 1-2 e 3-4 se fundiam em perfeição. Dentro de um grande cubo de carvalho construído por Euclides, com substrato carinhosamente cultivado por Alexandria, se exibia um enorme ovo esférico, produto de ambos. O casal se aproximou em lentidão respeitosa. Uma rachadura maculava o branco da esfera. Trocaram olhares silenciosos. Ela revisou os laços de suas tranças. Ele apertou o cinto.
Euclides tomou a iniciativa e aproximou o ouvido do ovo, ante o olhar preocupado de Alexandria, a quem ele ofereceu um gesto apaziguador com a palma da mão voltada para baixo. Pequenos ruídos e ronronares escapavam pela trinca. A palma da mão convidou a esposa a se aproximar e ouvir também. Estava lá, vivo, e ao que tudo indicava, pronto a eclodir. Dentro do ovo, uma potência se multiplicava.
— Como será nossa criação?
— Será perfeita, Alexandria. Como você.
— Mas será você, também.
— E eu sou menos perfeito do que deveria? Depois de tantos anos, não imaginava que…
— Não, não é isso.
Alexandria falava enquanto providenciava o rito, conforme os antigos enunciados. Buscou velas e fósforos na lateral do grande canteiro de madeira. Com movimentos cadenciados, fez surgir uma chama tênue e, com ela, acendeu as velas e as posicionou ao redor da estrutura. Entregou algumas para Euclides posicionar do lado oposto, sem esconder o desconforto pela passividade do companheiro. Só então retomou a conversa.
— Não é isso. É que… algo perfeito em si pode deixar de ser perfeito ao se juntar a outra coisa igualmente perfeita.
Desperto da pasmaceira, Euclides passou a auxiliar na preparação do rito, espremendo as flores das aristotelas, cujo doce perfume se espalhava por todo o lugar. Faltava-lhes prática para os afazeres que a situação exigia — era a primeira vez que chegavam até o resultado —, mas haviam se preparado para aquele momento sem paralelo por muitos séculos. As mãos conduziam as operações com maestria, como se aquele ovo rachasse diariamente.
— Não sei se entendi.
Enquanto ouvia a esposa, Euclides pensava na rotina. Nos pequenos rituais. No calor dos momentos no quarto do casal no canto 1, em suas obras e esculturas, nos aromas e sabores criados por Alexandria em sua horta.
— Sabe as bolhas que saem do chafariz e flutuam por nosso quarto? Elas são perfeitas, não são? — indagou Alexandria.

Enquanto falava e ouvia, Alexandria se culpava pelo sentimento de pavor que se multiplicava em seu coração. Arrependia-se da conclusão a que chegava paulatinamente.
— Sem dúvida. Cada uma tem seu tamanho, flutuam como se não houvesse cima e baixo, piso e teto. São ar e água. Suas paredes finas, tão finas, transformam o branco em arco-íris, são espelho e vazio. Se querem, nos visitam, nos tocam, se permitem viver sobre nossa pele. Depois se vão, como se espera de todas as coisas. Desaparecem assim que maculamos sua perfeição.
Um crec e a rachadura aumentou no ovo. Um arrepio percorreu as costas de Alexandria e Euclides.
— Agora pense em suas criações de madeira. Os navios, as máquinas de fazer vento, os vasos, o chafariz, a árvore cujos ramos se dividem infinitamente e de onde brota mais madeira, de todos os tipos, tamanhos e cores…
Os olhos de Euclides marejaram. Uma nova rachadura surgiu em outra parte da esfera. Um silvo — ou seria um brado? Um grito? Um choro? Uma incógnita? Uma variável? — escapou do interior que começava a brilhar em tons de dourado.
— Sou suspeito para falar, mas acho minhas criações perfeitas.
— E são, Euclides. E são. — Alexandria pegou em sua mão, condescendente. — São magníficas, sem igual em toda a Criação. Consegue imaginar uma fusão da bolha de sabão com uma de suas obras?
As rachaduras se expandiram, uma vindo de cada lado, como se buscassem uma à outra. Até que se uniram num só rasgo de lado a lado do ovo. O tampo se deslocou para cima e para o lado, caindo sobre a terra adubada.
— Euclides…
— Alexandria…
Apertaram as mãos um do outro, em cumplicidade. Uma bolha de sabão estourou no ombro de Euclides. Voltaram-se para o centro de seu mundo, de onde uma profusão de bolhas escapava do chafariz. Ao fitarem novamente o ovo, testemunharam o nascimento dos primeiros tentáculos.
— Euclides…
— Alexandria…
Recuaram um passo. O som escapou mais alto da esfera. Um silvo? Um brado? Um grito? Um choro? Uma incógnita? Uma variável?
— Euclides… corre.

O homem disparou pela parede 2-3, de volta à marcenaria, em busca da talhadeira e do martelo. O produto das existências perfeitas de Euclides e Alexandria emergia da esfera, espalhando-se por entre árvores e alimentos cultivados, envolvendo sua mãe.
— Euclides!
O homem já voltava, esbaforido, trazendo o martelo e a talhadeira. Alexandria olhava para a criatura ocupando cada vez mais o quadrado perfeito.
— Alexandria!
A talhadeira caiu junto aos pés descalços e suados num baque surdo. Euclides e Alexandria se deram as mãos enquanto o tentáculo abraçava com força seus pais. Uma bolha estourou num dos muitos espinhos da criatura recém-nascida. Ela era perfeita.

Este conto nasceu de uma conversa sobre matemática com meu filho. Quando ele disse algo sobre um trinômio quadrado perfeito, eu senti que o termo trazia uma carga dramática interessante. Três seres/nomes em um cubo/quadrado, e tudo perfeito. Mas o que é perfeito?

Conforme o mundo matemático-quadrático-surreal-cubista de Alexandria e Euclides se desenrolava durante a escrita, me vinham à mente algumas tiras mágicas e magníficas da incrível Laerte. O equilíbrio entre humor, absurdo, contemplação, desamparo e um final aberto. Quem era perfeita? O que era a “cria”? O que você quiser imaginar é uma resposta válida. Espero que a grande mestra não se ofenda com a homenagem e com a ousadia de me deixar inspirar por seu trabalho.
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