Doutor morto, Jogador posto

A mudança foi gradual, mas hoje ela é indiscutível nas esquinas do Rio de Janeiro: os doutores não são mais os mesmos.
Era um código não escrito, mas enraizado: para se aproximar de um estranho e estabelecer de cara uma relação de amistosa subserviência, tratava-se o outro por “doutor” ou por “chefia”, “patrão”.
É a forma como flanelinhas brotavam para cuidar dos carros recém-estacionados, como porteiros cumprimentavam moradores, como os vendedores de balas abordavam os clientes. Também era usado no sentido oposto, quando o cliente queria valorizar a postura do atendente, como na relação entre freguês e garçom num restaurante, ou com o balconista de um boteco. “Ô chefia, traz outra Brahma aí.”
Faz parte de nossa cultura hierárquica tão bem desenhada pelo antropólogo Roberto DaMatta. O “doutor” era a versão modernizada e urbana do “coronel”. Nunca se soube doutor em quê, se nos tratávamos uns aos outros como médicos ou como advogados. O fato é que, ao menos naquela relação efêmera, o “doutor” detinha a autoridade e o poder. Era um elogio, sim, mas também era um marcador de diferenciação de classe com uma pitada de inveja. Todos queriam ter um “dia de doutor”, de “patrão”.
Acontece, e aí entra uma análise minha, de certa forma rasa, que em tempos de “CEO de MEI”, o patrão já não manda a mesma coisa. Em contexto de descrédito em relação à educação formal, o “doutor” manda menos ainda. Com isso, o vocativo começava a se esvair de significado, até ser substituído.
Só me dei conta disso recentemente, depois de ouvir uma coleção de diálogos soltos pelas ruas. O doutor está morto, ausente das esquinas. Em seu lugar, vive firme, forte e poderoso, o “jogador”.
É ao “jogador” que o flanelinha oferece seus serviços. É ao “jogador” que a juventude nos sinais de trânsito vende suas balas. É o “jogador” que faz sua doação no Livro de Ouro da portaria. “Bom dia, jogador!”
O jogador é o novo símbolo máximo de autoridade nas ruas. Não mais o patrão. Não mais o doutor. A nova autoridade, quem tem carta branca para mandar, quem decide se acata ou não o pedido de caridade, é o jogador. É como se os jogadores (subentende-se que sejam de futebol) fossem o ápice econômico e social, aos quais todos devem jurar subserviência.
Como a turma não especifica o tipo de jogador, embora esteja implícito que seja do futebol de carne e osso, no qual sou uma absoluta catástrofe, começarei a andar por aí com minha ficha de personagem de RPG, que jogo há pelo menos uns 30 anos. Quem sabe consigo dar umas carteiradas de “jogador” por aí?
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