Skip to content

Devagar aí

Written by

Roberto Cassano

Meu filho é bom no FIFA (o videogame que não se chama mais FIFA, mas ok). Eu era meia-boca, confesso. O que direfencia meu moleque de jogadores como eu, além do conhecimento de todos os dribles e comandos, é um estado em que o foco é tão pleno que o mundo todo parece em câmera lenta. Então, de forma quase mágica, é possível antecipar os movimentos do jogador adversário, executar uma complexa sequência de comandos numa fração de segundos e ter tempo para processar a melhor saída em qualquer situação. E se você está ansioso para eu chegar logo ao ponto desse texto, então fica aí que esse post é para você.

Tenho fama de ser bem veloz nos projetos e tarefas em que me envolvo. Da mesma forma, falo muito rápido, quase um locutor do Jockey Club. Também preciso me policiar para não ficar interrompendo as pessoas em conversas, pois, assim como meu filho prevendo o movimento do oponente no futebol virtual, muitas vezes eu já pesquei todo o argumento no meio da frase e, com isso, desperta um comichão, uma necessidade de “dar skip” àquela cena. Só que do outro lado é uma pessoa, não um NPC de um jogo.

De uns tempos para cá tenho me forçado a desacelerar (Spoiler: é difícil). A resistir à tentação da multitarefa, de responder instantaneamente a cada notificação. A ouvir mais atentamente. E começo a reparar quando outros demonstram comigo a impaciência que eu, certamente, tantas vezes tive com terceiros. Inclusive, a todos vocês, fica aqui um lento, focado e cadenciado pedido de desculpas.

Fazer rápido X fazer correndo

Se esse pensamento acelerado e estado ansioso constante não fosse um problema pessoal e social em si, ele se revela como um perigo adicional no meio corporativo. Assim como não adianta eu apertar mil botões durante uma partida de FIFA, muitas pessoas entraram em modo superprodutividade-máxima-Hoooo!-5A.M.Club-semrénofoguete-boratimeeeee de fora pra dentro. Não é que elas de fato estejam operando nessa frequência mais alta (o que não recomendo pelo preço que o “overclocking” biológico cobra depois): ao invés de processar um mundo em 0,5X, elas próprias estão correndo em 2x em um mundo que segue em sua velocidade normal.

Tem uma diferença enorme entre ser/estar rápido e correr. Para a pessoa rápida, sua velocidade normal, o ritmo de cruzeiro, é acima da média. A fala, o raciocínio, a habilidade de fazer contas, o videogame… não são super gênios, são apenas pessoas que funcionam num RPM/ FPS maior para algumas coisas. Ela não é o Flash, apenas tem uma agilidade natural ou treinada para algo ou algumas tarefas. Então, o cidadão rápido está dentro de seus limites e consegue equilibrar performance e qualidade. É o garçom que tem o molho e consegue servir doze canecas de uma vez só, o que decora o pedido de uma mesa inteira numa passada e o chef preparando mil pratos na cozinha.

Mas correr é participar da tradicional corrida de garçons carregando uma bandeja carregada. Correr é fazer algo em uma velocidade acima da padrão. Isso sempre vem às custas da qualidade, da real conexão com o presente, com os interlocutores e com o que de fato deve ser feito.

Epidemia da correria

O que antes era um traço de personalidade de alguns indivíduos, cada vez mais parece ser um estilo de vida difundido. Nos sentimos na obrigação de replicar a agilidade das plataformas tecnológicas. Achamos que o outro é um áudio para se ouvir acelerado, um vídeo de publicidade para se pular. Não bastasse todo mundo correr uma maratona por dia, agora é no ritmo do Usain Bolt carregando bandejas. As coisas caem pelo caminho. Elas quebram. Comunicações ficam truncadas.

Não é preciso correr. Pelo contrário. Sem a necessidade de voltar e fazer correções, você será mais rápido caso se permita ir devagar. É despacito que se coloca a viagem em contexto, que se faz conexões. Em tempos de inteligência artificial, essas conexões que surgem apenas nos respiros entre palavras e ações nos diferenciam das IAs e tornam a relação homem-máquina mais saudável e, por que não, produtiva.

Experimente correr menos. Ganhe confiança em si mesmo. Escute ativa e atentamente ao outro. Reflita antes de responder. Permita-se ser mais rápido se quiser, mas não corra. O caminho para ser mais produtivo (se é o que você busca) é aprender a ser rápido, não é correr. Como diz esse antigo ditado: “a pressa passa, a m. fica.”

Tem um minuto para filosofia?

Param quem se interessou pelo tema, o livro “A crise da narração“, de Byung-Chul Han, traz um olhar interessante sobre as questões maiores que englobam minha encrenca acima com a correria. O buraco é mais embaixo, e podemos dizer que nossa impaciência para ouvir e processar o outro também dialoga com a perda da capacidade de criar/contar histórias e narrativas.

A pressão pela correria constante faz com que absorvamos as mensagens, histórias e diálogos em pequenos fragmentos, assim como fazem as plataformas de IA, nos aproximando delas na mesma velocidade em que nos afastamos das outras pessoas e do elemento essencialmente humano de ver e dar sentido às coisas, de jogos e videogames a projetos no trabalho.

Previous article

Que fique registrado

Join the discussion

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.