O novo sempre vem

Há muitos anos, escrevi um post aqui sobre uma preocupação paterna: como deixar meu gosto musical de legado? Volto aqui com atualizações.
O post sumiu numa pane que quase levou o Brogue pro além dos bytes, mas ele falava sobre consequências da digitalização e experiência individual da música. Do vinil, CDs ou fitas k7 tocando no grande aparelho de som da casa, as músicas migraram para arquivos digitais ouvidos em fones. Tenho comigo alguns vinis de meus pais, incluindo uma edição do Revolver, dos Beatles, da época de seu lançamento no Brasil. Olhando para minhas playlists digitais, me preocupava na época o fato de que não haveria como deixar nada disso para meu (então) pequeno e que ele nem seria “contaminado” pelos álbuns que eu ouvia discretamente em fones.
Nada como o tempo para resolver as coisas. O pequeno cresceu, está (bem) mais alto que eu, e a adolescência trouxe também o protagonismo da música em sua (nossas) vida(s). Seguimos ouvindo música nos fones. Já não tenho a propriedade de nenhuma das faixais que ouço, todas elas “emprestadas” pela plataforma de streaming. Ao “perder” minhas músicas, ganhei um universo novo de vozes, estilos e instrumentos a explorar.
Estrada musical
A prevalência dos fones de ouvido não nos não impede o compartilhar musical, sobretudo nos trajetos de carro, em que nos alternamos como DJs com a trilha sonora do deslocamento. Pude, com calma, sem pressa, apresentar as músicas que fizeram e fazem parte de minha vida.
E, para minha surpresa, o caminho é de mão dupla. Fui apresentado a muitas coisas (novas e antigas). Várias eu adicionei às playlists (o Bad Bunny que toca no fone enquanto escrevo não me deixa mentir). Outras não agradaram tanto (RAP gringo e trap). Foi com meu adolescente que descobri Cartola, os clássicos da MPB, samba de raiz (sim, ele ouve Cartola, Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Dicró…). Meu eu xóvem ouvia sobretudo rock e pop. O eu mais velho mescla novidades e coisas mais antigas ainda, e isso graças (em grande parte) ao mini-eu.
É mágica a troca, que traz ainda outra consequência: ao contrário do que se esperava, não me sinto estacionado nas músicas que ouvia na adolescência. Vejo muita gente assim, que segue ouvindo a vida inteira o TOP10 de seus vinte anos.
Quase tudo que ouço hoje, descobri depois dos 40. Jazz, Nina Simone, Cesária Évora, MPB em geral. E as novidades herdadas do filho. Acabou que não deixei meu gosto como legado. Construímos juntos uma nova discoteca compartilhada.
Não custa nada dar uma chance ao novo
Uma pitada de tecnologia para o post não ficar tão fora de tom aqui no Brogue: esse comportamento me parece condicionado à nossa forma descompromissada de ouvir música. Experimentar um novo artista tem o custo de uma busca e um clique no app de streaming. Fosse à moda antiga, eu teria arriscado comprar CDs de jazz, de Cesária Évora, do Chico, Vanessa da Mata, Rosalía e outras “descobertas” dos últimos anos sem saber se agradaria? Talvez não. Nem teria o mesmo tempo livre que tinha na juventude para ficar garimpando as prateleiras da finada Gramophone.
Se nós perdemos a propriedade sobre as músicas que ouvimos (a escolha por ter acesso a um determinado álbum não é mais nossa, é dos detentores dos direitos e das plataformas), ganhamos essa liberdade de experimentar, de aprender.
Como diria Marcelo D2, “E eu me desenvolvo e evoluo com meu filho. Eu me desenvolvo e evoluo com meu pai.“
“Acabou que não deixei meu gosto como legado. Construímos juntos uma nova discoteca compartilhada.”
Que maneiro isso! Em muitos níveis, inclusive! É bom viver em uma época em que os mais jovens podem criar e descobrir com os mais velhos em vez de serem um receptáculo de legados, né?
Uma curiosidade: tenho visto um bocado de jovem ouvindo música antiga. Ainda não li sobre o fenômeno, então não sei pq acontece ou mesmo se é só entre os jovens da minha esfera de relações.
Pelo menos aqui, é verdade esse resgate das músicas antigas. Meu filho ouve de Cartola a Dicró… descobri com ele vários artistas dos anos 50/60, pois essas gravações têm sido muito usadas como samples de RAP, tanto brasileiro quanto internacional.