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A arte de prever engarrafamentos

Written by

Roberto Cassano

Você já deve ter visto aquela imagem de um caminho cuidadosamente projetado em torno de uma praça com uma hipotenusa criada pelo passar dos pedestres que cortam caminho por sobre a grama.

Ela é usada para se falar de Experiência do Usuário (UX). Em resumo, ajuda a exemplificar que as pessoas vão interagir com interfaces e tecnologias da forma que for mais intuitiva, simples e vantajosa para elas, e não da forma (supostamente) elegante que o desenvolvedor imaginou.

Essa referência pode ser ampliada para tudo que envolve tecnologia. E, aqui, dá para se entender tecnologia de sua forma mais ampla: tudo que criamos para expandir as capacidades humanas é tecnologia, do fogo e da escrita aos chips da Nvidia.

As pessoas definem pra que serve uma coisa

Quando saímos do design de interfaces e pensamos no design de tecnologias, ou no design de sociedades tecnológicas, é preciso que tenhamos referenciais. É necessário contarmos com andaimes em que possamos subir para olhar a praça de cima de concluir que, “cara, esquece. O povo vai cortar caminho pela grama, ninguém vai contornar essa esquina.”

A ficção científica pode ser esse andaime, ao lado de ciências como a Antropologia e a Sociologia. Pensar tecnologia, inovação, comunicação ou negócios reais e pensar/ler ficção científica são olhares de pontos diferentes para a mesma coisa: nossa relação com o universo e com as ferramentas que criamos.

Vou pedir ajuda a dois escritores clássicos de SciFi para definir nosso contexto aqui. Primeiro é Ray Bradbury (mais atual que nunca, infelizmente), que uma vez disse o seguinte:

“Tudo o que você sonha é ficção e tudo o que você conquista é ciência.
Toda a história da humanidade é ficção científica.”  

Opa. Então nossa viagem não é tão doida assim. Dá para analisar estratégias de comunicação, inovação e desenvolvimento de tecnologias pelo prisma da SciFi. Beleza.

Daí vem o pulo-do-ciborgue, com essa frase de Frederik Pohl:

“Uma boa SciFi deve ser capaz de prever não o automóvel, mas os engarrafamentos.” 

Letramento em SciFi para comunicar e inovar

Pronto. Esse, que é o dever de casa de todo criador de ficção científica, também deve ser o dever de casa de todo mundo que desenvolve um negócio, site, ferramenta, aplicativo ou uma tecnologia qualquer. Entender e imaginar como as pessoas vão usar as inovações. O que farão com elas. Que consequências isso pode trazer.

É por isso que o letramento em SciFi deve fazer parte do currículo dos profissionais de comunicação, tecnologia e inovação. Os livros de negócio debatem o mundo como ele é. A ficção debate o mundo como poderia ser. Quando você lê e vê ficção científica com olhar crítico, você começa a olhar o carro e prever o engarrafamento. E isso muda tudo na hora de criar, usar ou avaliar novas tecnologias. Quando você pensa IA, criptomoedas, NFT, drones, metaverso, o que for, é preciso entender como aquilo entra na vida das pessoas (ou se não entra). Os humanos são movidos a gambiarra.

A gente precisa olhar o Pix e ver mais que um meio de pagamento. Precisa ver a cantada usando Pix de 1 centavo. Precisa olhar micropagamentos digitais e ver o OnlyFans, pack do pezinho. Precisa olhar as ferramentas de IA generativa e ver uma explosão de memes, ver fake news, ver estudantes trapaceando no trabalho da escola. E todos os outros efeitos na educação, mercado de trabalho e meio ambiente. Quem tem esse olhar e busca empreender pode criar algum serviço ou ferramenta que use Inteligência Artificial, mas também pode inovar pensando em serviços, ferramentas ou soluções para os problemas e oportunidades que surgem em uma sociedade heavy user de IA. As oportunidades não estão nas tecnologias em si, mas nos efeitos de sua adoção.

Distopias são alertas, não inspirações

A ficção científica se conecta com nosso mundo real (incluindo o dos negócios e da inovação) de três formas: 

  1. Ela inspira (as utopias)
  2. Ela alerta (as distopias) 
  3. Ela provoca, instiga

O letramento é fundamental para o sujeito não se inspirar numa distopia, e isso tem acontecido muito, com efeitos nefastos. Não faltam exemplos bizarros disso, de gente que tem poder e dinheiro para criar o carro que quiser mas não tem visão de mundo para imaginar os engarrafamentos. Ou humanidade para querer evitá-los.

Uma história que soube prever muito bem o engarrafamento foi o filme Her, de Spike Jonze (2013), com Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson. Eles olharam os assistentes virtuais e pensaram: “no futuro, todo mundo vai ter um fone de ouvido inteligente e vai ficar conversando com essas vozes da cabeça, e isso pode dar um nó num sujeito carente.” A história é distópica, mas ainda assim teve empresa achando uma ótima ideia clonar a voz da Scarlett Johansson para sua IA de voz.

Minority Report (2002) é outra referência enorme. Ela fez mais que previr interfaces virtuais de AR/VR: ela inspirou, provocou. E o pré-crime abordado na trama ajuda a pensar em viés algorítmico, nos perigos (e oportunidades) da IA em segurança pública, por exemplo. 

Robôs e IA: servos ou mestres?

Os mil robôs da ficção, as leis da robótica de Isaac Asimov… tudo isso inspirou e provocou a evolução da robótica. Essa visão do robô como um servo é curiosa porque remete à origem do termo robô, que vem do tcheco “robota” = “trabalho forçado” ou “servidão”. O termo apareceu na peça RUR, de Karel Čapek (1920). Nesse contexto, o robô surgiu como um ser moralmente passível de trabalhos forçados não-remunerados. Uma máquina de trabalhar. Como essa imagem molda a adoção de robôs e IAs no mercado de trabalho? Ou como ela é revista quando conversamos com os chatbots e até fazemos consultas psicológicas e de carreira com estes mesmos entes outrora servis?

E não dá pra esquecer de Black Mirror. Os temas que eram distopias assustadoras nas duas primeiras temporadas, hoje em dia são apenas mais uma quarta-feira à tardeSem um letramento SciFi, nossa inovação fica limitada à tecnologia pela tecnologia em si. Sem um estudo de “usabilidade” e impacto, a comunicação se empobrece e teremos cada vez mais engarrafamentos em nossas vidas e praças com calçadas lindamente projetadas em que as pessoas preferem pisar na grama.

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